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Cantinho da poesia

 
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Alguem



Joined: 11 Apr 2006
Posts: 2137
Location: Porto

PostPosted: Mon Nov 12, 2007 2:00 am    Post subject: Cantinho da poesia Reply with quote

Venho partilhar convosco algumas "brincadeiras" que de vez em quando me dá na "mona" fazer e que espelham a vivência do dia-a-dia, as minhas impressões, recordações, sentimentos...
E como a amizade se faz também de pequenas partilhas, aqui ficam ... Very Happy

O "Mágoa" já tem alguns anos (como o tempo voa...) e foi feito perto do Natal. "Rapsódia" e "Fantasia" já têm o seu tempito, também...
Espero que gostem... Smile Smile Smile

MÁGOA

A noite caía, escura e densa,
sobre a cidade pululante de energia.
Agitação febril, multidão imensa,
correria insana: já findara o dia!

Faróis, buzinas,
escapes, bobinas.
Carros apressados!

(Como voam, libertados...)

Passeios abarrotam,
montras enfeitiçam.
Pessoas indiferentes!

(Como vão, inconscientes...)

Subitamente aconteceu.
Feriu a noite,
logo emudeceu.
O grito era rouco,
lancinante,
despropositado, louco,
horripilante!

(Indiferença geral.
Também,
quem se preocupa com tal?)

A manta rota,
o cabelo desgrenhado;
era um bêbado!
Igual em qualquer lado...

Passa um casal por perto.
Pai e filha,
é quase certo.
A mão estende-se,
tímida, hesitante,
trémulo matreiro,
algo inquietante.

"Só me faltava mais esta...
Vai mas é trabalhar!"

A filha puxa-lhe a manga
num modo discreto,
olhar muito azul,
num sussurro secreto:

"Pai!!! Não! Não fales assim!!
Não vês que está a chorar?!"

Atónito estacou.
E lentamente olhou.

Viu um olhar triste,
penetrante,
inundado de mágoa
num breve instante.
Sentiu-se mal. Porquê?
Não sabe, nem explica.
Somente quis partir, fugir!
Necessidade atroz
talvez doutro existir...

RAPSÓDIA

Amanhecia.
Tímido espreitar.
Passo incerto, caminhar ausente.
Devagar.

Descanso.
Paragem escolhida.
Violino desperto, sonho desfolhado
de uma vida.

Melodia.
Sons imutáveis.
Árias repetidas, aplausos perdidos,
improváveis.

Entardecia.
Lento arrumar.
Passo incerto, caminhar ausente.
Devagar.

(Há muito tempo que o não vejo.
Terá morrido
ou dará aulas de solfejo,
no Espaço hipercomplexo,
sem nexo,
a n dimensões?)

FANTASIA

(Correm livres, correm soltos,
bando de pássaros loucos,
felizes no seu adejar...)

Evasão,
há magia no olhar!
Um brilho coruscante,
fascinante.
Mil promessas trocadas,
mil dúvidas lançadas...

Jogos de cor,
estrepitoso fulgor!
Faces excitadas,
fornalhas de emoção.
Serpentinas deslizam no ar,
louca aguarela a pintar...

Bailarina, palhaço,
malabarista, espadachim.
Ah! Quanto sonho partilhado,
quanta ansiedade contida,
apenas... num simples fato de cetim!
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gnoski



Joined: 11 Nov 2007
Posts: 175

PostPosted: Mon Dec 03, 2007 12:37 pm    Post subject: Reply with quote

Sou nova nestas andanças. . . Peço desculpa a confusão . . .

Como conheço estes poemas ! . . . Não fosse meu irmão . . .

Olá ! ! ! Um beijo ! Smile
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Lino



Joined: 09 Mar 2006
Posts: 1123
Location: Coimbra

PostPosted: Mon Dec 03, 2007 1:47 pm    Post subject: Reply with quote

Olha irmãos no fórum! Smile

Mesmo que falte nesta época do ano, cá vai a Balada na Neve, por Augusto Gil:

Balada da Neve


Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
-Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

Smile
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Miguel Freire



Joined: 21 Jul 2006
Posts: 681
Location: Porto

PostPosted: Tue Dec 04, 2007 10:01 pm    Post subject: Reply with quote

Aprendi a Balada da Neve de cor no antigo 2º ano do ciclo. Andava na Escola Preparatória de Augusto Gil e foi uma homenagem que fizemos numa festa lá na escola. Belo poema.

Um dos meus preferidos é o Cântico Negro, especialmente quando é bem dito.
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Teark



Joined: 14 Aug 2007
Posts: 325
Location: Algures por Portugal, nem sei bem

PostPosted: Sat Jan 31, 2009 4:02 am    Post subject: Reply with quote

Miguel Freire wrote:
Aprendi a Balada da Neve de cor no antigo 2º ano do ciclo. Andava na Escola Preparatória de Augusto Gil e foi uma homenagem que fizemos numa festa lá na escola. Belo poema.

Um dos meus preferidos é o Cântico Negro, especialmente quando é bem dito.


A Balada da Neve ainda sei de cor assim como A Nau Catrineta, ambos aprendidos no meu 5º ano.

Quanto ao Cântico Negro é sem dúvida o meu preferido e um grande marco na minha vida. "Descobri-o" quando tinha os meus 13 anos, acabada de entrar na adolescência e tudo o que eu queria era não seguir os caminhos que para mim traçavam sem me pedirem opinião... "Sei que não vou por ali!" tornou-se a minha frase de eleição, enfim o meu mote. Mais tarde, já aos 17 anos tive o privilégio de participar num recital de poesia e, em sorteio calhou-me este magnifico poema! Recitei-o acompanhada pelos sons de um piano bem tocado, que belo momento que ainda hoje revejo mentalmente.
Também o sei de cor, claro!

Cântico Negro de José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí


________________________________________
Dito por Maria Bethania
http://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk

E pelo João Villaret
http://www.youtube.com/watch?v=OexuXLZcHkY
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Kelme
Guest





PostPosted: Sun Feb 01, 2009 7:41 pm    Post subject: Reply with quote

Também fiz o ciclo no Augusto Gil talvez em 85/86, já não me lembro do ano e também aprendi lá o poema "A balada da neve"
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