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rui sousa



Joined: 13 Dec 2006
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PostPosted: Sun Dec 16, 2012 8:46 pm    Post subject: Reply with quote



"Juntos pela primeira vez" é a frase de promoção ao filme «Bowfinger - O Sem Vergonha» que pode ser lida neste cartaz, por cima do título do filme. A frase refere-se, obviamente, aos atores e comediantes Steve Martin e Eddie Murphy, numa junção que, na minha opinião, deveria ter acontecido mais vezes (e é preciso salientar que, se isso for possível, que se envolvam em filmes melhorzinhos - há quanto tempo não vemos Martin e Murphy a sobressairem, realmente, de algum dos últimos projetos que fizeram?), porque neste filme, funciona surpreendentemente bem, criando um grande momento de comédia que, nos últimos anos, pouco se tem visto na indústria cinematográfica norte-americana (infelizmente, são as comédias televisivas que têm ganho popularidade, ultimamente - há espaço para projetos novos e mais cativantes e inteligentes, como é o caso das séries «Louie» e «Parks and Recreation»), que prefere viver à custa do lucro fácil, com projetos repetitivos, secos e que utilizam um humor mais infantil e humilhante (veja-se o caso dos constantes êxitos - pelo menos em Portugal - das comédias de Adam Sandler...).

«Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia divertida e algo surpreendente, tanto em termos humorísticos (não esperava dar, a este filme, uma nota como a que vou dar), como na escrita do argumento e no elenco selecionado para interpretar as inúmeras e patéticas personagens do filme. É uma sátira ao sistema económico e cultural da produção cinematográfica de Hollywood, não deixando, por isso, de ser uma caricatura atual da situação de hoje em dia. O filme pode ser visto, também, como uma crítica não-exaustiva à forma como os responsáveis de Hollywood põem a previsão de lucro que um projeto possa obter acima da qualidade que o mesmo contenha, tomando, por vezes, atitudes implacáveis para levarem as suas "convicções" económicas até ao extremo (veja-se, por exemplo, o caso do filme «The Magnificent Ambersons» de Orson Welles, que será, em breve, alvo de uma das minhas críticas - apesar de, para mim, ter funcionado bem na versão de oitenta e oito minutos, o filme era muito maior: um terço do filme ficou perdido para sempre devido às exigências dos produtores, que o queriam tornar o mais comercial que fosse possível, acabando a obra por ser, mesmo assim, um desastre no box-office). Por fim, mas não menos importante (visto que é, provavelmente, a crítica mais forte de todo o filme) «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma sátira às extravagâncias e falta de inteligência das estrelas do sistema hollywoodiano (destaque para um pequeno apontamento humorístico em que aparece uma pseudo-Igreja da Cientologia) e às mil e uma maneiras que os artistas arranjam para conseguirem alcançar o seu sonho de singrarem no perigoso mundo de Hollywood, e tornarem-se tão famosos como os seus ídolos cinematográficos (podemos ver esta crítica simbolizada na personagem de Heather Graham, uma atriz que, acabada de chegar a Hollywood, aproveita-se de tudo e de todos para conseguir entrar no topo).

Em «Bowfinger - O Sem Vergonha», encontramos um elenco cómico de luxo. A maior surpresa do filme é, sem dúvida, Eddie Murphy (que interpreta dois surpreendentes papéis: um, o de um ator de ação apalermado de Hollywood e paranóico com o racismo e com a seita religiosa em que acredita - a tal pseudo-Igreja da Cientologia - que é filmado para um projeto cinematográfico sem saber da existência do mesmo; e outro, o do duplo do ator, um autêntico choninhas que será contratado, à última da hora, para "tentar" substituir o ator original, para evitar mais problemas com filmagens não autorizadas), cuja performance faz notar, claramente, um regresso (pelo menos momentâneo) do ator às suas origens cómicas e às grandes imitações e personagens por que se tornou conhecido (tanto nos primeiros filmes da sua carreira, como antes, em programas televisivos como o mítico «Saturday Night Live», e nos seus hilariantes espetáculos de stand-up comedy - disponíveis, de forma integral, no youtube). Contudo, a cereja no topo do bolo é Steve Martin, que além de ter escrito o argumento de «Bowfinger - O Sem Vergonha», é também o protagonista do mesmo, dando vida ao indivíduo que dá título à comédia, e que se trata de um realizador arruinado de Hollywood, que procura a ressurreição da sua carreira, querendo, para isso, fazer um novo filme, a partir de um guião escrito pelo seu contabilista (que se trata de uma história de ficção científica, possuidora de todos os clichés e elementos cinematográficos em que os estúdios veem maiores hipóteses de lucro - é nessas situações que, aos senhores ricaços dos estúdios, lhes sobem os cifrões à vista... gaita, que isso deve fazer um mal danado aos olhos!).

Realizado por Frank Oz (um grande nome das lides hollywoodianas, que trabalhou em projetos tão diversos e inovadores como, por exemplo, o universo dos Marretas, ou mesmo nos seis filmes da saga «Star Wars», dando voz a Yoda), que dirige com simplicidade e sem grandes adereços esta comédia (não lhe tirando, por isso, qualquer valor cómico ou cinematográfico), posso concluir que «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia muito subvalorizada (talvez pela "fama" que os dois míticos atores Martin e Murphy obteriam pelos seus projetos futuros...) e que, apesar de não ser um filme que, garantidamente, eu não queira rever em breve, entretém muito e consegue ser um filme inteligente, engraçado e original. Vale a pena!

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rui sousa



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PostPosted: Fri Dec 28, 2012 4:04 pm    Post subject: Reply with quote

Na semana passada voltei a ver dois filmes que me tinham deixado uma marca muito forte, e que há muito tempo queria revisitar. Filmes que me deixaram pouco para dizer por escrito, mas muito para pensar e sentir. Quis também rever estas duas obras primas inegáveis da História do Cinema para confirmar se essa impressão inicial se mantinha. E manteve-se. E são dois filmes que me ensinaram tanto sobre a Arte de se fazer um filme, que logo se juntaram à minha lista de Filmes de Sempre. E novamente, estes dois Grandes filmes deixaram-me pouco para escrever e muito para admirar. Por isso, deixo aqui duas pequenas críticas sobre essas fitas, completamente recomendáveis, e que são ambas obras de * * * * *!


O primeiro filme visto foi «O Carteirista» («Pickpocket» na versão original), uma pequena obra-mestra do realizador francês Robert Bresson. Com pouco mais de setenta minutos, «O Carteirista» contém um significado e uma simbologia que vale por muito filme de maior duração. Uma história simples, vagamente inspirada em «Crime e Castigo» de Fiodor Dostoievsky, relata as andanças de Michel, um indivíduo com umas certas teorias sobre o crime e a inteligência do ser humano que o levam a agir com o meio que o rodeia de uma forma menos usual. Começa uma "carreira" como carteirista (as sequências em que assistimos à prática do "carteirismo" estão profundamente e minuciosamente filmadas, vale a pena visioná-las com atenção). O ator que desempenha a personagem não era um profissional, e foi esse o objetivo de Bresson em escolhê-lo, para poder dar a maior inexpressividade possível a Michel, uma caracterísitca que encaixa perfeitamente na personagem e no ambiente que a envolve. Um tesouro cinematográfico que urge ser descoberto, uma análise detalhada e complexa sobre a culpa e a procura do significado da existência humana. Michel é um homem perdido nos seus pensamentos, que irá sentir na pele as consequências dos seus atos e da sua estranha (e algo perigosa) maneira de pensar. Uma autêntica lição de Cinema!


O segundo filme, visto na manhã da véspera de Natal, dá pelo nome, em português, de «A Grande Esperança» (no original, «Young Mr. Lincoln»). Um autêntico poema em forma de filme, esta obra prima do realizador americano John Ford está tão bem executada, interpretada e filmada, que é um mimo para a vista poder contemplar, de novo, todas as cenas e planos de câmara que a obra contém, e que foram exemplo a seguir por muitas gerações de cineastas. Uma crítica à ignorância e à precipitação de um povo, características que nele se mantiveram totalmente iguais nos nossos dias. O ator Henry Fonda encarna Abraham Lincoln nos seus tempos de juventude, quando começou a exercer advocacia e a dar que falar numa pequena aldeia americana. Um caso praticamente impossível, mas que Lincoln saberá usar e explorar de uma forma arrabatadora. Arrebatadores são também as imagens lindíssimas das paisagens e dos personagens que John Ford proporciona aos espetadores, e consigo perceber a "inveja" que o cineasta russo Sergei Eisenstein tinha em relação a este filme ("de todos as obras que possuem uma harmonia quase clássica", dizia ele, "esta ocupa o lugar de honra"). Adorei rever o retrato de Lincoln, assemelhando-se a um novo e renovado Jesus Cristo, a querer chamar à razão o povo ignorante que o rodeia. E não me recordava do final do filme, e por isso a surpresa em relação ao mesmo manteve-se. Uma preciosidade inesquecível.
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rui sousa



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PostPosted: Sun Dec 30, 2012 2:08 pm    Post subject: Reply with quote



Adoro o universo de South Park, a mítica série de comédia animada criada por Trey Parker e Matt Stone e emitida no canal Comedy Central (um dos grandes expoentes do humor televisivo nos EUA - é lá que são também transmitidos programas célebres como «The Daily Show» ou o seu spin-off «The Colbert Report»). E a adaptação cinematográfica da série televisiva foi o primeiro filme na minha vida que vi sem legendas, há cerca de uns quatro anos. Algumas piadas poderão ter-me passado ao lado na altura, mas recordava-me do essencial do filme e das partes onde que tinha soltado mais (e ruidosas) gargalhadas. Não há dúvidas que «South Park - O Filme» é uma grande comédia, que leva a criatividade de Parker e Stone aos limites do impossível. Todos os pormenores da série e todas as possibilidades do grande ecrã foram aproveitados para a elaboração desta fita animada. Além de possuir todas as marcas do humor satírico e corrosivo da dupla de humoristas, «South Park - O Filme» é também um musical, repleto de melodias e letras hilariantes, e que mostrou ser um sinal das capacidades de Parker e Stone para este tipo de entretenimento, algo que ficou de vez comprovado com a peça que criaram para a Broadway, «The Book of Mormon», e que recebeu variadíssimos prémios, como os Tony Awards, os mais importantes na área do Teatro.

Em «South Park - O Filme», a pequena cidade e os seus habitantes atingem proporções nunca antes vistas, com a estreia de um filme canadiano no cinema de South Park. Terrence e Philip, os dois comediantes que Kyle, Stan, Cartman e Kenny adoram, estão pela primeira vez no grande ecrã, com um filme corrosivo, ordinário, idiota, e por isso polémico e controverso para os Pais da criançada da cidade. Claramente, esta situação apresentada na história do filme é também uma sátira à constante polémica e censura de que a série «South Park» tem sido alvo ao longo dos anos, desde o seu "nascimento". A estreia da fita leva muita garotada a ir vê-la e conseguir entrar no cinema, apesar do filme estar interdito a menores de 18 anos. Os efeitos do filme nos miúdos são irreversíveis: a sua linguagem torna-se muito mais ordinária e badalhoca, mas a gota de água foi a experiência de Kenny a tentar imitar um dos truques dos humoristas canadianos, o que levou ao seu (já habitual) falecimento. E os progenitores, depois desta tragédia (quer dizer, o Kenny já foi tantas vezes desta para melhor que cada novo falecimento já não pode ser considerado como uma tragédia, mas sim uma rotina...) põem todas as culpas na obra de Terrence e Philip (qual país, qual sociedade, qual quê! Aqueles dois canadianos é que são as reencarnações do Diabo na Terra!) e declaram guerra aberta ao Canadá (com um momento musical, «Blame Canada», que é de rir e chorar por mais! Aliás, esta canção esteve nomeada para o Oscar...). E esta situação totalmente ridícula serve para, ao estilo que a série de televisão tão bem nos costumou, gozar com a América e suas idiossincrasias com uma garra e um génio que muitos poucos têm a ousadia de utilizar.

«South Park - O Filme» só será ofensivo para quem assim o entender. Contudo, penso que esse não tivesse sido o objetivo de Trey Parker e Matt Stone com este universo, os episódios da TV e esta fita. É "apenas" uma grande sátira, de proporções (quase) épicas, sobre tudo e mais alguma coisa. Desde o fanatismo e censura que os americanos "construíram" nas últimas décadas (censura essa que os leva, por vezes, a tomar medidas extremas - no filme, é a eclosão de uma guerra contra o Canadá, tudo por causa de dois humoristas e o seu filme pateta), às idiotices da infância (apesar dos quatro amigos falarem, por vezes, como gente grande, há sempre momentos em que se parodia a sua própria condição de crianças), passando pela liberdade de expressão, o controlo da criação cultural pelas autoridades e as desculpas que os americanos constantemente dão para os seus filhos serem como são (nunca é por culpa dos Pais, mas sim da sociedade, do país vizinho, da televisão...). No meio de várias paródias musicais quer às peças da Broadway, quer aos filmes da Disney, quer a algumas das míticas frases da série, «South Park - O Filme» mostra o melhor e o pior daquela cidade, num filme hilariante e repleto de grandes cenas, com um humor negro e excêntrico difícil de agradar a todos os públicos, mas essencial para os admiradores da série ou deste género de comédia. Uma obra surpreendente que não perdeu atualidade com o passar dos anos (apesar do ajudante do Diabo, Saddam Hussein, já não estar entre nós, a piada mantém-se, e continuar-se-á a manter por muito mais tempo) e pensada ao pormenor, para agradar a todos os fãs do programa e desagradar aos que o consideram a causa de todos os males dos Estados Unidos da América. Brilhante!

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rui sousa



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PostPosted: Tue Jan 01, 2013 5:50 pm    Post subject: Reply with quote


O ano de 2000 foi marcado por diversos acontecimentos cinematográficos de valor. Um deles poderá ter sido, a meu ver, a passagem do célebre "Beat" Takeshi Kitano, realizador, escritor, ator, apresentador, etc etc etc, pelos Estados Unidos da América. Do resultado desse cruzar de culturas surgiu «Brother - Irmão», um thriller no estilo a que Kitano habituou os seus seguidores e fãs das abordagens, na sua filmografia, à "yakuza", a máfia japonesa. O filme é a prova de como a sagacidade e a visão oriental do cineasta conseguem agradar além-fronteiras e impôr-se, num país dominado por uma cultura cinematográfica própria e que domina, praticamente, a distribuição de filmes em todo o Mundo. Apoiado por um grupo de profissionais do cinema americano que souberam perfeitamente respeitar os objetivos de Takeshi Kitano com este «Brother», o realizador criou mais uma grande história para juntar ao seu vasto (e complexo) currículo artístico, com uma história que volta a envolver crime, negócios obscuros e violência (não sendo banal e sim, estilizada ao jeito que Kitano caracterizou a sua filmografia).

«Brother - Irmão» é uma espécie de versão interracial de «O Padrinho», onde o confronto de culturas (a japonesa e a americana) acaba por ser um dos primordiais pontos-chave de toda a trama, sendo mesmo quase uma personagem autónoma, que condiciona as ações e comportamentos de todos os personagens do filme. Yamamoto é um membro da yakuza que, ao refugiar-se nos EUA após uma guerra da dita máfia no Japão, reencontra o meio irmão, um "dealer" da zona e que dá poucos motivos de orgulho a Yamamoto. Contudo, é a presença do gangster nos "states" que fará com que ele, o seu familiar e os seus amigos/colegas de "profissão" se juntem a uma organização criminosa local, que a pouco e pouco começará a crescer, travando uma contínua e sangrenta guerra com a máfia americana. Um dos amigos do irmão de Yamamoto torna-se um grande companheiro deste, que chegado a uma terra desconhecida e sem saber falar praticamente inglês, encontrará nele um apoio e um guia para perceber tudo o que se passa à sua volta, conseguindo entenderem-se os dois sem precisarem de falar muito um com o outro.

«Brother - Irmão» é talvez um dos filmes menos apreciados de Takeshi Kitano. Alguns críticos e especialistas na Sétima Arte acusaram a incursão americana como o principal fator que motivou o falhanço deste filme. Contudo, o mesmo não tem uma nota má de todo no IMDB (está no número 7) e conseguiu agradar a muitos fãs do Cinema do multifacetado artista japonês. Repleto de cenas de violência gráfica, mas mostrada de uma maneira algo poética (e que faz, por um lado, lembrar as cenas violentas de «O Padrinho»), mas talvez demasiado explícita e repetitiva, percebo que algumas pessoas tenham considerado o filme algo cansativo e contínuo por insistir, por vezes, na mesma tecla. Não é um filme para todos os gostos, e mesmo na minha opinião, fiquei com uma impressão algo enjoativa de uma ou outra cena. Mas penso que a demasia da violência possa ser apropriada para o contexto do filme. Provavelmente Kitano pretende, com o uso dela, mostrar a fidelidade e o fanatismo com que os membros da yakuza levam a sua posição nesta dita organização, algo que é real e que inúmeras reportagens escritas e televisivas têm vindo a mostrar ao longo dos anos. E esta violência fez-me alguma impressão no bom sentido, porque me pareceu ser real, e não plástica como em muitos filmes americanos. É a violência no estilo seco e perturbador de Takeshi Kitano, que não precisa de nos mostrar tudo Tintim por Tintim para acreditarmos no que estamos a ver. E isso é obra.

Contudo, apesar da controvérsia gerada pelo filme além-atlântico e do estilo em que é filmado, «Brother - Irmão» é um filme que vale pelo seu visionamento. Traz uma bonita história sobre a amizade e a lealdade, repleta de realidade (a experiência pessoal de Takeshi Kitano foi usada pelo próprio para relatar as atitudes e preocupações de Yamamoto e companhia) e com a qual nos podemos identificar, apesar de envolver um universo que nos é completamente distante. Com «Brother - Irmão» regressa a já "milenar" colaboração entre Kitano e o realizador Joe Hisaishi, que compõe, para não variar, uma extraordinária e poética banda sonora, que dá um tom muito oriental a um filme que se passa, na maioria da sua duração, num país ao qual não costumamos associar os sons e melodias que escutamos nesta obra. De salientar também a grande e marcante química entre "Beat" Takeshi e Omar Epps, o ator que interpreta o amigo americano de Yamamoto, e que hoje em dia é mais conhecido pelo seu papel na popular série «House M.D». A amizade que se constrói entre os dois criminosos tem o seu quê de comovente.

Por fim, é importante não esquecer a forma como Takeshi Kitano vai filmar esta história dramática (com alguns toques de comédia) nos EUA, sem ter de se submeter às "regras" da cinematografia do país, não se esquecendo, contudo, da forma de falar e de socializar dos americanos. Kitano mantém-se igual a si próprio, utilizando o seu estilo de Cinema único e inimitável, repleto de técnicas e características peculiares e que constituem a sua visão da Sétima Arte. «Brother - Irmão» não é um filme para todos os gostos, mas que vale o seu visionamento e que sabe agradar a quem o quiser ver. Sem esquecer as suas origens, "Beat" Takeshi conseguiu, ao longo dos anos, suscitar o interesse de um público muito mais vasto e de proporções internacionais, e que esperam, em cada novo filme do realizador, uma história e uma visão cinematográfica diferente da que estão mais habituadas. E «Brother - Irmão» cumpre essa premissa, sendo mais uma prova da versatilidade, da criatividade e da internacionalidade do Cinema de Kitano.

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rui sousa



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PostPosted: Mon Jan 07, 2013 10:49 pm    Post subject: Reply with quote



Uma ode à liberdade de expressão e à capacidade e poder do diálogo para a transmissão de ideias, «Boa Noite, e Boa Sorte» é um grande drama político que pega na história real de um dos mais prestigiados jornalistas de sempre, Edward R. Murrow, um homem exemplar, tanto na coragem que teve de descortinar diversas polémicas e verdades escondidas da sociedade americana, como na capacidade de não desistir de defender e promover os ideais e os valores que achava mais corretos dentro da ética jornalística (ou seja, do verdadeiro jornalismo, conceito este que me parece ter ficado meio perdido nos dicionários poeirentos de algumas redações de certas publicações da imprensa, algo notório não só em Portugal, como também a nível internacional...). E esta atitude manteve-se sempre, mesmo nas piores alturas, em que Murrow e seus colegas da estação televisiva CBS arriscaram-se a perder o emprego, e mesmo até se o preço a pagar para se descobrir a verdade tivesse que ser demasiado elevado...

O filme relata um desses casos desta segunda opção: a "batalha" travada entre Murrow e o senador McCarthy, o indivíduo responsável pelo que é conhecido, nos nossos dias, como "Caça às Bruxas", uma época de fanatismo e inteligência saloia que perseguiu o povo americano durante vários anos (e que surtiu efeito em diversas personalidades icónicas do Mundo das Artes - veja-se o caso de Charles Chaplin, acusado - injustamente - de ligações às atividades do partido comunista americano, levando-o a exilar-se do país que lhe deu a fama e a fortuna). Murrow tentou chamar a atenção de um país cujo pensamento ficara "adormecido" pelas investigações e técnicas muito pouco normais do McCarthyismo na "luta" contra o comunismo nos EUA. Uma tentativa que deu certo, e que é ainda recordada hoje em dia, como um dos investigações jornalísticas mais emblemáticas e estudadas do século XX.

«Boa Noite, e Boa Sorte» trata-se de uma espantosa crítica sobre o perigo de se ser honesto e das consequências de se querer descobrir e divulgar a "verdadeira" verdade jornalística. George Clooney realiza um filme exemplar, com o ator David Strathairn a vestir-se da cabeça aos pés desta lenda da televisão que é Edward R. Murrow. Apenas reclamo não ter havido, pelo menos, alguma informação adicional sobre o que se sucedeu após os "confrontos" entre Murrow e McCarthy (fica tudo um pouco superficial), mas além disso, penso que não há mais nada de relevante para criticar. Destaque ainda para a escolha do preto e branco para este filme, fator que assenta muito bem no mesmo, visto que nos recorda, quase num ambiente de "film-noir", uma época que os EUA nunca poderão esquecer...

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almachev



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PostPosted: Fri Jan 18, 2013 12:20 am    Post subject: Reply with quote

Simplesmente hilariante...aconselho vivamente....9/10
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rui sousa



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PostPosted: Mon Feb 04, 2013 7:40 pm    Post subject: Reply with quote


E na primeira vez no ano que entrei num cinema para, efetivamente, ver um filme (que é para isso que um estabelecimento destes serve primordialmente - para além dos serviços de restauração, farra, sanitários e tudo o que não tenha a ver com a Sétima Arte), dei de caras com «Lincoln», uma epopeia magnífica realizada por Steven Spielberg (sem qualquer tipo de comentários a fazer sobre este Grande Senhor da Arte das Imagens em Movimento) e protagonizada por Daniel Day-Lewis naquela que foi, para mim, uma das maiores e melhores performances que pude vislumbrar em muito tempo. Quis ver este filme não só pela admiração que tenho por Abraham Lincoln, que é provavelmente um dos Presidentes americanos mais populares da História do País (senão "o" mais popular), mas também para saber se poderia comprovar, tal como o fez meio mundo de críticos e votantes do IMDb, que a investida de Spielberg em filmar os últimos quatro meses de vida de Lincoln resultou. E sim, na minha opinião, «Lincoln» cumpriu todos os seus objetivos. Mas não sou um grande seguidor de Spielberg, não conhecendo a totalidade da sua obra mas respeitando o Cineasta e a sua visão a 100%. Contudo, o seu penúltimo filme, «Cavalo de Guerra», deixou-me um pouco de perna atrás - vi apenas metade do mesmo, mas do que pude ver não houve nada que me convenceu que aquele filme era tão bom como várias pessoas me tinham dito -, e também o facto de me dedicar mais a ver filmes antigos (há tanta coisa boa no passado para descobrir antes de ver muito do lixo que se faz atualmente), mas enquanto estava a ver «Lincoln» numa sala que me proporcionou excelentes condições para o contemplar de todo (à exceção das três ou quatro pessoas que estavam atrás de mim e que adoravam fazer barulho com os pacotes de plástico de "um-alimento-qualquer-que-os-seres-humanos-gostem-de-levar-para-os-cinemas" a cada momento mais solene do filme), percebi que este filme não é igual à maioria dos filmes que se encontram em exibição. Fiquei muito surpreendido com este filme, mas vou tentar alongar-me mais um pouco, para poderem perceber que gostei mesmo de «Lincoln» e isto não se tratou de um impulso precipitado da minha parte.

«Lincoln» retrata um dos períodos mais intensos da vida política de Abraham Lincoln, tendo como ponto central da trama a Proclamação da 13ª Emenda na Constituição Americana, Emenda essa que permitiria terminar com a legalização da escravatura nos EUA. O filme mostra uma dualidade da figura histórica que muito pode emocionar alguns, mas que não se trata de algum pormenor lamechinhas e "lava-cérebros", ao género de muitos filmes de propaganda política que foram feitos durante toda a História do Cinema: a do político e do Pai de família, que sem esquecer o amor à pátria (não levada a extremos como hoje em dia alguns americanos, que definem "patriotismo" de uma forma algo estranha), passa tempo com os seus filhos e ensina-lhes o que acha que é importante para cada um deles compreender melhor a vida. Estes momentos paternais são em pouca quantidade em toda a duração de 150 minutos que o filme tem, mas acho que fazem a diferença, principalmente se compararmos as atitudes que Lincoln, sem ser algum santinho ou uma divindade americana, toma no longo processo que levou ao dia de eleições para a 13,.ª Emenda. É feito um retrato mais humano de Lincoln, que aprovou certas táticas e esquemas algo duvidosos para levar a sua avante, mas... não consegui deixar de pensar que foi por uma boa causa, ao contrário de todas as falcatruas onde estão metidos os nossos políticos hoje em dia...

É impossível não falar de «Lincoln» e não dedicar algumas destas linhas ao ator Daniel Day-Lewis e à sua excelente interpretação do protagonista do filme. Diria mesmo que me arrepiei com este Lincoln. Em parte já tinha ficado impressionado com o Lincoln-versão Henry Fonda (de «Young Mr. Lincoln - A Grande Esperança») pela grande certeza e firmeza com que o ator interpretou o seu papel, mas este Lincoln-versão Day-Lewis é também ele impressionante, mas por outras razões: enquanto que o Lincoln de Fonda retratava os seus primeiros anos como advogado, mostrando uma imagem mais jovem e humilde da personalidade que em muito condiz com a cinematografia pura e bonita de John Ford, o Lincoln de Day-Lewis (aquele que é considerado o melhor ator da atualidade) é muito mais velho e com outras preocupações (nomeadamente a nível político) que o "outro" Lincoln não tinha com que se debater. Contudo, em ambos os filmes a figura é retratada de uma forma digna e honrosa, sem ser falsa ou propagandística, e não as podemos comparar, porque ambas são excecionais à sua maneira. Tanto Fonda como Day-Lewis conseguem não interpretar Abraham Lincoln, mas sim "serem" o próprio Lincoln, e isso é algo que me surpreendeu imenso em ambos os casos. Se Day-Lewis arrecadar o Oscar, e apesar de eu não ter ainda visto nenhum dos outros filmes nomeados para os Prémios da Academia, penso que será mais que merecido!

A ver «Lincoln» (que apesar de durar duas horas e meia, para mim passou num instante), lembrei-me de algumas críticas de cinéfilos e críticos que dizem que o Cinema, como Arte, está em vias de falecer. Que me perdoem essas pessoas, e eu também posso não ter muitas razões para afirmar o que vou escrever aqui de seguida (visto que visiono muitos mais filmes de outros "tempos" do que propriamente atuais), mas provavelmente não saberão do que estão a falar. Ou talvez, se virem «Lincoln», poderão mudar de opinião. O filme bate certo em muita coisa que só poderá ser mesmo bem vislumbrada num ecrã grandinho: a nível técnico, posso destacar a maravilhosa fotografia e a banda sonora do multi-premiado John Williams (que apesar de não ter, aqui, um dos seus trabalhos mais originais, conseguiu elaborar uma banda sonora bonita e que acompanha brilhantemente a ação do filme, a meu ver). Mas gostei sobretudo em «Lincoln» das cenas dos debates do Congresso, muito ao jeito do Cinema clássico e que me fizeram lembrar, em parte, o fabuloso filme de Frank Capra «Mr Smith Goes to Washington» pela vivacidade e realidade que aqueles debates me passaram, e que infelizmente, pioraram de geração para geração (que se acusem as pessoas que acompanham regularmente - e por vontade própria - o Canal Parlamento...). «Lincoln» é um filme muito natural e pouco cliché (sim, existem algumas particularidades da obra que podem ser consideradas típicas da cinematografia americana, mas que estão bem "jogadas" e acabaram por não estragar o ritmo da fita), que contém um argumento puramente genial, repleto de grandes deixas e de citações que, em pouco tempo, inundarão os sites que se dedicam a fazer imagens do género para depois serem partilhadas nas redes sociais. Se muitos já foram os retratos fílmicos de Lincoln (convém não esquecer o de «O Nascimento de Uma Nação» de D.W. Griffith), mas acho que «Lincoln» bate qualquer outro na perspetiva mais histórica e precisa do seu ambiente e dos seus atores.

«Lincoln» relata, em suma, o processo repleto de impurezas que circundou a 13.ª Emenda e sua proclamação na Constituição Americana, mas não se centrando apenas em Abraham Lincoln e dando espaço de "intervenção" a todos os seus ajudantes nas pequenas aldrabices políticas que foram planeadas: porque não se tratava apenas de Lincoln, mas sim de toda a máquina política que o acompanhava, com algum humor e realçando a vertente cómica da personagem (os momentos em que decide contar pequenas histórias engraçadas durante o filme são imperdíveis, principalmente uma que envolve um retrato de George Washington). Rodeado por um grande elenco de atores secundários (destaque especial para Tommy Lee Jones num desempenho que está também nomeado para uma estatueta de Hollywood, mas também para as aparições de Sally Field - também nomeada -, James Spader, David Strathairn, Jared Harris e Joseph Gordon-Levitt), Daniel Day-Lewis preenche o ecrã de uma maneira extraordinária e que poucos atores da atualidade conseguem igualar. «Lincoln» é o relato da América fora de mitos e superstições criadas ao longo dos anos, não deixando contudo de existir a imagem que todos temos de Abraham Lincoln (e que se mantém, mesmo com toda a "mentira piedosa" da Emenda - visto que foi por uma boa causa). É um filme que acarreta uma elevada simbologia e que, penso eu, será estudada por alguns especialistas nas próximas décadas. Não sei se se trata de um dos pontos altos da carreira de Spielberg, mas não tenho dúvidas que se trata de um grande filme, que não pode ser esquecido na salganhada constante de estreias cinéfilas que se sucedem semanalmente. Mas «Lincoln» é, para mim, um filme que faz a diferença no meio da repetição constante de blockbusters sem imaginação que têm invadido as nossas salas.

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PostPosted: Mon Mar 11, 2013 9:17 am    Post subject: Reply with quote



«Haverá Sangue» pode ser, em parte, como que um complemento ao clássico «O Tesouro da Sierra Madre» (e que constituiu uma grande influência para a elaboração deste clássico contemporâneo), no que respeita ao tema da riqueza e a toda a mudança económica, política e social que a mesma traz a quem a possui. Uma das mais extraordinárias obras cinematográficas modernas, este filme realizado pelo incontornável Paul Thomas Anderson (responsável por poucos - mas grandes! - filmes, como o inesquecivelmente bizarro «Magnolia» e o mais recente «The Master - O Mentor», uma reflexão mais profunda sobre a vida que foi um filme injustamente esquecido dos Oscares deste ano, nomeadamente no que diz respeito ao Melhor Filme), uma das vozes cinematográficas mais originais do nosso tempo e que tem marcado território entre os Grandes Mestres da História da Sétima Arte. Com influências dos clássicos americanos mas trazendo ao mesmo tempo a sua perspetiva inovadora, complexa e perturbadora da Arte das Fitas, Paul Thomas Anderson mostra como ainda há espaço, nos dias de hoje, para se fazer a diferença e se trazer a inovação no Cinema. Cada novo filme que realiza é esperado com muita ansiedade, e «Haverá Sangue» não foi exceção, arrecadando diversas nomeações para os Oscares desse ano, conquistando duas, a de Melhor Fotografia e a de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis, o segundo prémio da Academia de um artista que este ano conquistou a terceira estatueta da sua carreira (tornando-se o ator mais premiado de sempre pela Academia) pela sua magnífica prestação em «Lincoln».

«Haverá Sangue» inicia-se de uma maneira invulgar e comprometedora que não nos diz muito do que poderemos esperar de todo o seu enredo posterior. E ainda bem, porque esta se trata de uma história que desde o princípio se mostra original, complexa e identificável com qualquer período da História humana. Mesmo que as circunstâncias se alterem, nunca deixarão de persistir nas sociedades a ganância, a ambição e a procura de Poder nas almas dos indivíduos que as constituem. A partir da história de Daniel Plainview (Day-Lewis), um magnata do petróleo em constante ascensão profissional (e queda em termos de humildade e de humanidade) na América de princípios do século XX, dominada por uma onda de progresso e mudança que caracterizariam o país durante as primeiras décadas e que hoje são aprofundadamente estudadas e conhecidas pelo grande público, «Haverá Sangue» traça a história do país, de um período de transição entre Eras de desenvolvimento, e da sua busca constante por riqueza, que tornou os EUA numa das grandes potências do mundo atual. O filme trata-se também de uma crítica aos valores atrasados e retrógrados da sociedade americana e da forma como, em muitas circunstâncias, não se soube adaptar devidamente às alterações que foi verificando na sua estrutura económica, social e política. Relatando também em paralelo a história de Eli Sunday, um homem que ascende também a um lugar dentro da diversa religiosidade abrangentemente presente na cultura da América, criando a sua própria seita (a "Igreja da Terceira Revelação") que caracteriza todos os fanatismos e incongruências de muitos cultos do género em Terras do Tio Sam, que assiste a uma contínua e imparável propagação em massa de profetas e de seitas que defendem diversas ideias, muitas delas aparentemente absurdas para quem pretende possuir uma visão mais normal e menos fanática das coisas.

Outro dos pontos altos de «Haverá Sangue» é a relação de Daniel Plainview com o seu filho adotivo H.W. Plainview (que não saberá, durante muito tempo, de que ele não é o seu Pai biológico), que com ele estabelecerá laços muito fortes de companheirismo e também de negócios, visto que H.W., quando criança, ajudará muito o seu "progenitor" na compra de terrenos propícios à exploração de petróleo e noutras coisas que envolvem este negócio. Contudo, com o passar dos tempos e a cada vez que Daniel enriquece mais e mais, a sua relação com o filho deteriora-se a cada passo. E aí ficamos a pensar que será que toda a ligação que ele estabeleceu com H.W. não passou apenas de uma oportunidade aproveitada pelo petroleiro para melhorar a sua vida económica e profissional... Talvez se possa, a partir destes dados, fazer-se uma comparação de «Haverá Sangue» a «Citizen Kane», vulgarmente considerado o Melhor filme de todos os tempos. Talvez o filme de Paul Thomas Anderson possa ser visto como uma versão moderna, em termos técnicos, e mais aprofundada, a nível psicológico, das ideias do clássico realizado, escrito e protagonizado por Orson Welles, comparação feita por vários críticos especializados aquando a estreia de «Haverá Sangue». Contudo, tratam-se de dois filmes distintos, incomparáveis e Grandes à sua maneira. Mas este filme ganha mais pela forma menos direta e mais tocante como aborda a ligeireza das relações humanas e da condição do Homem no meio que habita. Mas repito: são duas fitas inigualáveis e obrigatórias! Contudo, as semelhanças com «O Tesouro da Sierra Madre», confessadas pelo próprio Paul Thomas Anderson, são as mais notórias, e por isso penso que «Haverá Sangue» deve ser visto depois do filme de John Huston, que aborda alguns dos mesmos temas e da mesma forma, negra e profunda.

«Haverá Sangue» tornou-se, merecidamente, um dos filmes mais influentes e aclamados deste vigésimo primeiro século. Outros cineastas da formidável geração de Paul Thomas Anderson, como Quentin Tarantino, expressaram a sua admiração por este magistral filme, que apenas merece aplausos de quem dele gostou, como foi, obviamente, o meu caso. Uma reflexão moderna sobre a vida, apesar da narrativa se centrar no princípio do século passado, que mostra como as coisas mudam, mas o ser humano e as suas características psicológicas permanecem iguais. Um filme perfeito a nível técnico (a fotografia magnífica, os fabulosos planos de câmara e perspetivas dos ambientes e das personagens, a banda sonora, minimalista mas inesquecível...), narrativo e representativo (grande leque de atores, encabeçado pelo Mestre Daniel Day-Lewis), que mostra a força que o Cinema contemporâneo pode ter, se quiser. Muitos apressam-se a dizer que tudo já foi inventado na nossa época e que não existe nada de novo para se elaborar, não só no Cinema como também noutras áreas culturais e tecnológicas. Mas «Haverá Sangue», e o seu realizador, mostram como essa frase não faz nenhum sentido.

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PostPosted: Mon Mar 11, 2013 11:39 pm    Post subject: Reply with quote



Uma das obras cinematográficas mais badaladas deste (ainda) fresco ano de 2013 no nosso país, «The Master» é o mais recente filme de Paul Thomas Anderson. Esperado ansiosamente pelos fãs do cineasta, que se espalham um pouco por todo o Globo, o filme tornou-se ainda menos consensual que o seu antecessor, «Haverá Sangue» (quer dizer, se espreitarmos a curta carreira de Anderson, perceberemos que os seus filmes nunca são totalmente apreciados pelo povo cinéfilo). A controvérsia de «The Master» iniciou-se logo meses antes da sua estreia, com as alegadas comparações da história do filme, que relata a vida de o criador de uma seita com o nome de «A Causa», aos primórdios da Cientologia e ao homem que fundou a religião mais famosa de Hollywood. E continuou a propagar-se até hoje, depois de toda a temporada de prémios que, na minha opinião, deixaram este filme injustamente de parte. Contudo, a meu ver, não é a comparação com uma seita real que faz de «The Master» ser um filme tão bom, para mim. Esta obra tem tanta coisa dentro dele que, por vezes, parece querer dizer muita coisa e ao mesmo tempo é como se não estivesse a passar nada para o espetador. É um filme profundo, uma fita complicada e um pouco pesada, não sendo aconselhável para quem deseja passar uma boa tarde a ser entretido com um filme ligeiro. «The Master» é um filme difícil de entrar, mas se se aderir a todo este ambiente e personagens, é impossível querer sair dele. É mais uma grande obra de Paul Thomas Anderson, que marca o Cinema Moderno.

«The Master» centra-se em duas personagens e as relações que estabelecem uma com a outra, embora se tratem de indivíduos com histórias de vida completamente distintas: o primeiro é Freddie Quell (interpretado por Joaquin Phoenix, um dos atores mais versáteis e marcantes desta geração, que toca pelo seu estilo único, perturbante e arrasador - foi nomeado para o Oscar de Melhor Ator este ano, perdendo para outro Grande: Daniel Day-Lewis), um homem alcoólico, perturbado, agressivo e complicado; o outro é Lancaster Dodd (mais um Grande, Philip Seymour Hoffman, que já interpretou tantas personagens e em tão grande variedade que deixará com certeza o seu lugar na História do Cinema Americano. Foi também nomeado para Oscar em 2013, mas na categoria de Melhor Ator Secundário), o carismático líder de "A Causa", uma seita bizarra com muitos seguidores, e que convida Freddie Quell a conhecê-la melhor, acabando por fazer parte do seu grupo de fiéis... ou talvez não (isto fica à consideração de cada um - vejam o filme e perceberão porquê)... o resultado é uma história controversa, uma amizade peculiar, e uma forma nova e invulgar de se ver a vida e suas particularidades, algo que Paul Thomas Anderson já habituou os espectadores, que aposta regularmente em iniciativas sempre alternativas e que nunca ficam desaproveitadas (pelo menos esse é o caso dos outros dois filmes que vi do cineasta...) e que não deixam ninguém indiferente. Há os que podem ficar com sono a ver «The Master», e outros poderão não entender qual a magnificiência que este sacanazinho vê nesta obra moderna (algum opinador poderá soltar as "sábias" palavras: "este gajo passa a vida a ver filmes a preto e branco que depois se entusiasma com tudo o que tenha cor!" - OK, desculpem, não sei o que se passa comigo hoje, prossigamos!), e como já referi, não é um filme fácil. Mas ele tem mesmo alguma coisa de especial. Pelo menos para mim!

Penso que «The Master», tal como todos os grandes filmes que pretendem agitar a normalidade das coisas, terá de esperar alguns anos para ser verdadeiramente reconhecido. Não se trata de uma obra que seja compreendida e "rotulada" após a sua estreia. É daqueles poucos filmes que precisam de algum tempo para "amadurecer" e atingir camadas maiores de fãs. Tal como se sucedeu com «2001: Odisseia no Espaço» (apesar do filme de Kubrick nada ter a ver com o de Anderson) e com os que apreciam o vislumbramento onírico de «A Árvore da Vida», por exemplo. Não tenho dúvidas que, em edições futuras de listas conceituadas como o AFI e a Sight and Sound, pelo menos um dos múltiplos jurados considerará colocar «The Master» no seu top. Mas pode ser feita uma comparação entre as três fitas: todas mostram um confronto entre a(s) crença(s) e a racionalidade do Homem, e a forma como a sua mentalidade muda através dos atos que comete (no caso de «The Master», assistimos a uma mudança - ou talvez não... - de Freddie Quell em relação à sua provocadora e chocante maneira de ser, demonstrada nos minutos iniciais do filme). «The Master» explora perguntas, mas no final deixa-nos com mais questões ainda por responder. É o olhar preciso através de uma câmara de uma seita religiosa e de como, apesar de para as pessoas que estão fora dela parecer ridícula, é tratada com enorme respeito e dedicação pelos seus seguidores. «The Master» é também uma história de outsiders (um estatuto que Phoenix e Hoffman também acarretam na vida real, participando, na maioria das vezes, em projetos menos populares e afastando-se do glamour e falsidade da fama de Hollywood) e da constante busca do ser humano pela resposta ao irrespondível (esta palavra existe? Senão olha, dou uma de Mia Couto e começo a inventar palavras). Possui uma grande fotografia e cinematografia, além de uma banda sonora escolhida a dedo. Esta obra comprova o método perfecionista, mas inovador, de Paul Thomas Anderson, e que continua a marcar o cineasta como um dos poucos dos EUA que pretendem mesmo mudar o Cinema e trazer sempre algo de novo a uma Arte que é constantemente atacada nos nossos dias. Nada mais posso acrescentar, já esvaziei o depósito de "frases feitas para convencer pessoas a ver um filme" que tinha guardadas para esta crítica. E o filme deixou-me muito pouco de interessante para poder dizer, porque vale por ele próprio e não pelo que qualquer indivíduo possa escrever sobre ele. Eu sei que me repito frequentemente, principalmente no tipo de desculpas que dou para não ter grande coisa a dizer sobre fitas. Mas «The Master», para mim, não foi uma fita qualquer. E por isso até aceito as desculpas que dou a mim próprio desta vez.

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PostPosted: Tue Mar 12, 2013 11:18 am    Post subject: Reply with quote



Ontem estive em OZ mais a namorada, com 2 bilhetes por apenas 4.80EUR, ou seja 2.40 por pessoa o que é um preço acessível para quem quer ir ao cinema sem gastar muito dinheiro, não tem segredo se alguém for cliente ZON compra 2 bilhetes pelo preço de um, sendo segundo-feira fica explicado o valor pago. Por norma costumo ir ao Dolce Vita, pois é onde tem as melhores salas em todos os aspectos aqui no Porto, mas ontem fui ao Gaishopping e digo-vos que fiquei enojado na sala onde estive, gordura por todos os lados, pedaços de milho por todo lado, mas milho de há alguns meses se não anos, as cadeiras nojentas e todas rotas, enfim, compensou com a qualidade do som e imagem que estavam à altura do filme.

Como estava dizendo fui até OZ, não em 3D mas em 2D e sem pipoca, já estava a contar com o que ia ver, um filme com uma história um pouco frágil sem grandes novidades e até semelhante ao já conhecido "Feiticeiro de Oz", como seria se em vez de Sam Raimi o filme fosse realizado por Tim Burton? De salientar o que de melhor se destaca do filme, a boneca de porcelana que está soberba e que é dobrada pela menina que pede ao Oz para fazer o milagre de ela sair da cadeira de rodas e a ponha a andar, mas Oz não é assim tão poderoso, pelo contrário, um charlatão, mulherengo e com dotes duvidosos de mágico. Mas por incrível que pareça o milagre acontece e não vou adiantar mais para não estragar a história a quem não viu.
Outra particularidade do filme é a "homenagem" ao cinema, desta feita à pré-história do cinema com a utilização do praxinoscópio para combater as bruxas más, assim como a referência a Edison e às suas invenções como o Kinetoscope.
Não se trata de uma obra-prima mas sugiro que vejam.
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PostPosted: Thu Mar 14, 2013 11:14 am    Post subject: Reply with quote



O grande vencedor dos Oscares deste presente ano de 2013 (e filme apreciado pelo sôr Presidente Barack Obama), «Argo» é um inteligente thriller político americano que venceu todos os prémios que poderia angariar na sua estante de troféus, saindo vencedor de BAFTAS, Globos de Ouro e de tantas outras cerimónias, para além da da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Contudo, penso que talvez este seja um dos filmes de Oscar mais sobrevalorizados dos últimos anos. Trata-se de uma boa fita, consistente e ritmada. Mas talvez esteja a ser demasiadamente aclamada pelos americanos não tanto pela sua qualidade, mas pela mensagem e valores que pretende transmitir. Tenho ouvido, ano após ano, de oposições aos vencedores de Oscar dos últimos tempos e do quão são merecedores ou não desse tão desejado galardão cinéfilo, e cinematográfico. Mas com «Argo», chegou a minha vez de "protestar". Enquanto tinha encontrado alguma qualidade que fazia os últimos filmes premiados sobressaírem, a meu ver, para merecerem ser distinguidos (como, por exemplo, o caso de «Quem Quer Ser Bilionário» e «O Artista», que levou muitas marretadas da crítica portuguesa quando cá estreou), neste não consegui descobrir nada que fizesse este filme destacar-se entre os outros nomeados, nem mesmo de outros filmes que nem sequer chegaram à fase das nomeações («The Master - O Mentor», por exemplo). Talvez «Argo» tenha vencido em tudo quanto é prémio apenas pelas tendências presentes na moda cinematográfica deste ano. Mas apesar de tudo, é um bom filme. E vou explicar porquê mais adiante, mas sem querer, vou debruçar-me muito nos aspetos negativos. Mas não se admirem depois da nota que lhe vou dar. Apenas acho que, mesmo sendo bom, há certas coisas más (e com um grande valor) que têm de ser realçadas.

«Argo», um filme realizado e protagonizado por Ben Affleck (que já tinha dado que falar na Academia com «O Bom Rebelde», o qual recebeu o Oscar de melhor argumento original "a meias" com Matt Damon, e que começou a destacar-se, nos últimos anos, na realização de filmes curiosos e interessantes como «A Cidade», um filme de ação, e «Vista pela última vez», um thriller baseado no romance homónimo do autor Dennis Lehane) é uma adaptação para o grande ecrã da arriscada operação de resgate de seis americanos do Teerão, em plena revolução no Irão e com a perseguição fanática e infindável ao Xá da Pérsia. O filme inicia-se em jeito de documentário, com umas voz-off que nos localiza, temporal e psicologicamente, nos tempos conturbados daqueles últimos tempos da década de 70. E depois, começa a mostrar não só o lado americano, da CIA, onde se prepara o plano para resgatar os reféns, como também as situações e emoções vividas pelos próprios reféns, enquanto estão refugiados na casa do Embaixador da Suíça. Através de um esquema complexo e improvável, que envolvia a "falsa" produção de um filme de ficção científica em terras das Arábias (ao qual a CIA deu o nome, precisamente, de «Argo»), o agente Tony Mendez tentou levar a sua avante, apesar de todas as consequências e riscos que o seu plano suportava. E, sem pretender querer ser spoiler (aliás, basta ir ver os livros de História, não é nada que não se "saiba"), a operação correu bem, os americanos ficaram todos felizes e continuaram a ser os melhores do Mundo. Ou isto é apenas o que o filme pretende mostrar... sim, é exatamente isso. «Argo» possui muitos erros históricos que têm tornado a fita causa de controvérsia um pouco por todo o Mundo, mas não é essa a questão que está em jogo na maneira como eu analiso esta obra (e que, penso eu, todos os críticos ditos "profissionais" deveriam levar em conta, de vez em quando, para não darem desculpas um pouco esfarrapadas quando não gostam de um ou outro filme), porque estamos a analisar uma obra de ficção, que pretende ser um bom filme e não uma análise detalhada da realidade (para isso já existe o Canal de História e afins...), e eu não pretendo moldar a minha noção dos factos por adaptações cinematográficas dos mesmos (a primeira coisa que costumo fazer quando vejo um filme supostamente baseado em "factos reais" - passe-se a redundância - é pesquisar a veracidade do mesmo e de como a ficção se mete com os factos, o que prejudica ou em certos casos beneficia os filmes - basta ser bem usada esta "fórmula"). Mas em certas alturas a ultra-ficção, por vezes ultra-banal, de «Argo», torna-se realmente insuportável, estando demasiado influenciada pelas convenções do cinema americano moderno e a seguir o modelo banal dos filmes ditos de "chacha" de domingo à tarde (como, por exemplo, aquele final tipicamente vulgar e previsível, onde tudo está feliz e contente e "iei, os States são o Paraíso que vós, países europeus, sempre almejaram atingir!", que vai buscar muitas influências a esses filmes "sensaborões"). «Argo» é um filme onde a América salva o dia, e ponto final. Mas tem os seus prós, e que são valiosos.

Na minha opinião, apenas um Oscar foi totalmente merecido para «Argo»: o de Melhor Montagem. A montagem do filme é sem dúvida importante para o desenrolar da trama e das emoções fortes, das tensões e do stress que esta coloca junto do espectador, o que o faz ter uma grande componente psicológica e "thrillerística" que foi muito bem trabalhada e conseguida. E Ben Affleck, que além de ter o papel de protagonista (não tão destacável) é também realizador do filme, mostra saber manejar todo o conteúdo de «Argo» de uma forma estonteante, veloz e com algo de inesquecível. Nisto os americanos são mesmo bons, não haja dúvida: a fazerem filmes com bom entretenimento que, no caso de «Argo», apesar de se perder em certas partes sem grande interesse, destaca-se de tudo o resto. O filme possui uma boa fotografia, que utiliza de forma única e eficaz os ambientes em que a narrativa foi filmada. E temos também boas e grandes interpretações, com destaque maior para os secundários Bryan Cranston (o fabuloso Walter White da magistral série de TV «Breaking Bad»), Alan Arkin (nomeado para Oscar este ano - e já tinha vencido no ano de «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» - , mas que perdeu para Christoph Waltz) e John Goodman (que ultimamente tem aparecido em muitos e bons projetos). Houve também um trabalho de pesquisa, em encontrar atores que se assemelharam muito com as personagens reais que estiveram envolvidos na operação de resgate, o que dá uma maior curiosidade em descobrir, depois, a realidade dos factos. E o argumento venceu outro Oscar, mas apesar de não ser algo de excecional, está bem construído, tornando o filme mais emocionante e empolgante... apesar de algumas partes mais previsíveis lá pelo meio. Por fim, a música, da autoria de Alexandre Desplat (um dos mais "concorridos" compositores de Hollywood) também acresce a parte positiva de «Argo».

O que é possível concluir, depois de toda esta salganhada de coisas boas e más que eu encontrei em «Argo»? Aquilo que eu afirmei no primeiro parágrafo desta crítica: é um filme sobrevalorizado, mas bom. E que no fundo, gera um bom debate, o que é agradável e raro de se encontrar nos filmes americanos recentes (pelo menos cá em casa foi o que se sucedeu, com uma sucessão de discussões sobre os prós e contras da verdade da história relatada na fita). «Argo» é um inteligente e sólido thriller, repleto de adrenalina, e que, com certeza, irá preencher, de forma agradável e algo inteligente, quem espera umas boas duas horas de puro (e bom) entretenimento. Contudo, os Oscares parece que dão, para certas e determinadas pessoas, um ar de "superioridade" aos filmes que os arrecadam. No caso de «Argo», isso não foi visível, pelo menos para mim. Mas se já foi para tanta gente é porque o filme lhes disse alguma coisa de especial, provavelmente. Contudo, o que aprendi a ver filmes é que não se deve ligar muito a uma coisa chamada "expectativas". Acabam por arruinar, muitas vezes, o que poderia ser uma boa e tranquila sessão de cinema. E, ao menos, «Argo» cumpre esse objetivo. Ao menos isso.

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PostPosted: Fri Aug 23, 2013 2:28 pm    Post subject: Reply with quote

Vi muitos filmes durante estes meses em que o blog esteve em manutenção, mas vou postar alguns dos mais significativos dos clássicos na secção de Cinema aqui do fórum.

Deixo aqui este, um dos mais recentes que vi:



On the night of November 14th, two men broke into a quiet farmhouse in Kansas and murdered an entire family. Why did they do that? Two worlds exist in this country: the quiet conservative life, and and the life of those two men - the underbelly, the criminally violent. Those two worlds converged that bloody night.

Truman Capote é, inquestionavelmente, uma das figuras mais marcantes e controversas do século XX na Literatura e na sociedade americanas. A personalidade extravagante e desequilibrada do autor de «Breakfast at Tiffany's», repleta de manias e características pouco comuns no ser humano, foi muito bem transposta para o ecrã nesta fita biográfica de Bennett Miller (que realizou em 2011 «Moneyball - Jogada de Risco», um filme recomendável), e protagonizada por Philip Seymour Hoffman (num papel irreconhecível que lhe valeu o Oscar, bem merecido, nesse ano) que se centra nas peripécias vividas pelo escritor, e testemunhadas em grande parte pela sua grande amiga Harper Lee (que, de um momento para o outro, encontrou a fama ao publicar o seu livro «To Kill a Mockingbird», vencedor do prémio Pulitzer nesse ano, e que já foi editado com variadíssimas traduções em português e que originou a igualmente famosa adaptação cinematográfica protagonizada por Gregory Peck - que levou o Oscar para casa, graças ao advogado sulista Atticus Finch), que o levaram a escrever a obra que, para muitos estudiosos, é a sua obra-prima, «A Sangue Frio», sobre um caso real do assassínio impiedoso de uma família do Kansas por dois homens, e que o mudou para sempre. Capote interessou-se pelo estranho acontecimento e, ao querer saber as razões dos acontecimentos daquele dia 14 de Novembro de 1959, acabou por mudar a sua vida para sempre. Aliás, foi por causa da experiência algo traumática e frágil que Capote vivenciou nas investigações que fez para este livro, e a relação de proximidade que estabeleceu com um dos criminosos, Perry Edward Smith, que o autor nunca mais conseguiu acabar nenhum outro romance. Capote entrevista também testemunhas do incidente e pessoas próximas das vítimas daquele horroroso massacre, mas é em Perry que ele acaba por se interessar mais por se identificar tanto com ele, apesar de querer manter uma certa distância, já que Truman tem uma imagem social e literária para manter (e espera conseguir isso com a sua visão do homicídio em «A Sangue Frio»), e isso vê-se bem na forma como esconde do condenado à morte tudo o que está a escrever no livro e as suas intenções com o mesmo. Quer Capote salvar aquelas duas pobres almas ou, simplesmente, continuar a alimentar o seu crescente e planetário sucesso?

Truman Capote levou a sua pesquisa, e a sua escrita, ao extremo para «A Sangue Frio», e é isso que o filme nos mostra, à medida que aprofunda cada vez melhor esta personagem e a sua importância para a época em que viveu. Com um romance que, pelo que dizem, mudou a literatura americana, e que com o qual Capote inventou um nome género literário (a "non-fiction novel"), pelo que ele próprio afirma nesta obra. Ele aproveita-se de Perry para concretizar a sua "pepita" de ouro que tanto quis alcançar em toda a sua carreira literária e profissional, mas também mostra alguma da sua intimidade, parte das características que, pensa ele, a sua "capa" social consegue esconder, graças à fragilidade que encontra em Perry e na sua história de vida, tão parecida com a sua. «Capote» é a história do criador que fica afetado pela história que o leva a criar algo de novo, e que faz com que toda a hipocrisia, o fingimento e a cobardia perante os outros que Capote emanava, e que faziam parte da sua "persona" literária muito vincada (e quase de fachada - basta ver os maneirismos e as conversas superficiais e a parecerem que são muito interessantes que Capote tem com os seus convivas ou com as pessoas que conhece por causa deste caso), se desvaneçam pelo choque profundo que o escritor sentiu ao tomar contacto com esta curiosa, e provocadora situação. Com uma ótima fotografia e uma reconstituição invejável de uma época tão deliciosamente interessante, a nível cultural, nos Estados Unidos da América, e acompanhado por um sólido argumento, inteligente, sensível e engraçado em doses certas, salpicado também por bonitos momentos de banda sonora, de performances e de "estilo" cinematográfico, «Capote» constituiu uma nomeação curiosa e interessante da Academia, no ano em que «Colisão», de Paul Haggis, foi o grande vencedor da cerimónia. Não é um filme para ganhar prémios, mas sim para ser visto e para se entender melhor uma personalidade tão curiosa do panorama artístico americano, e que utiliza para isso o melhor que o Cinema tem para oferecer na técnica, na arte e na narrativa. «Capote» é uma película essencial para os admiradores de «A Sangue Frio» ou de qualquer outra obra do autor, sendo uma fita que nos ajuda a entender como a escrita, e a própria arte no geral, são muito condicionadas pelo autor que a quer pôr em prática.

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PostPosted: Wed Sep 11, 2013 1:00 pm    Post subject: Reply with quote



Woody Allen e toda a sua filmografia serão sempre dominados por um estigma que o público português (ou pelo menos, grande parte dos espectadores tugas) nunca se irá esquecer e nunca pararão de associar ao cineasta: é que ele foi (e ainda é) especialista em grandes comédias neuróticas, onde as pessoas gostam de se rir à gargalhada de coisas que, muitas delas, não entenderam patavina (é quase uma gargalhada de "status"). Daí que ontem, na sessão de antestreia (a que assisti graças à oferta do passatempo do Cinema2000) de «Blue Jasmine», o novo filme de Allan Stewart Konigsberg, no Cinema do Campo Pequeno, muita gente tenha pensado que o que estavam a ver era uma verdadeira comédia, e muitas gargalhadas despropositadas em muitas potentes cenas trágicas (se houve pessoas que se riram do final deste filme, devem talvez achar muita graça aos dramas de «A Lista de Schindler» ou de «O Padrinho» - porque é que é tão difícil perceber que nem tudo é para rir numa comédia? Para algumas pessoas o rótulo de "humor" dá-lhes permissão para se rirem de tudo e mais alguma coisa, inclusive de coisas que não têm qualquer tipo de graça?) da história protagonizada excecionalmente por Cate Blanchett (digo aqui e não mudo de opinião: ela VAI levar o Oscar para casa - e, se eu depois a opinião da Academia não for a mesma que a minha, não vou mudar este texto!). Mas «Blue Jasmine» tem mais para chorar, ou pelo menos pensar, do que gargalhar: há grandes momentos de comédia, mas nada se compara à força do drama vivido por Jasmine e toda a crítica social que Woody Allen coloca nesta sua protagonista e anti-heroína. Num dos filmes mais aclamados de toda a carreira do comediante e realizador (com tantas marcas do seu estilo muito próprio a voltarem a deslumbrar-nos - a começar logo pelos créditos iniciais e aquele tipo de letra que diz tanto aos fãs de Woody), encontramos uma metáfora e uma história que poderia encaixar em tantas vidas, e em tantas pessoas que conhecemos no nosso dia a dia. Jasmine é uma pessoa que não quer acreditar no declínio da sua própria existência, levada a cabo por uma série de fatores e de factos que "destruíram" o seu passado milionário, luxuoso e repleto de excessos (e que nos são revelados ao longo de toda a ação e de toda a narrativa da fita, onde seguimos dois fios temporais, contados de forma intercalada, o que dá uma construção cinematográfica bastante interessante e reveladora, em que ambos os "mundos" cronológicos acabam por encaixar em certos pormenores e situações: o passado e as consequências que levaram ao fim da vida aparentemente feliz e segura de Jasmine, e o presente, onde a encontramos depressiva, reencontrada com a irmã adotada - tal como ela - e a recusar encontrar um novo caminho para si mesma - ou pelo menos, quando tenta fazer isso, nem sempre tudo acaba bem, acabando por arruinar mais um pouco todas as pessoas que a rodeiam e que a tentam levar à razão. Os dois tempos são também atravessados pela viagem por dois estratos sociais diferentes, o dos ricos e o da "vulgaridade" do povo). Quanto de Jasmine estará em cada um de nós, ou pelo menos, na perceção do mundo de cada ser humano? Algumas pessoas levam mais a sério do que outras esta história e as dúvidas que ela coloca (e sim, volto a falar das gargalhadas indesejáveis, e de pessoas que não perceberam que aquilo que se passava no ecrã é extremamente real e profundo - não estamos a visionar nenhum romance neurótico ao estilo de «Annie Hall», e ainda bem!), mas fiquei com a ideia de que estamos perante uma das melhores e mais inteligentes obras saídas da mente e criatividade de Woody Allen. E isto já é dizer muito, sobre aquele que será, efetivamente, um dos melhores filmes a estrear nas nossas salas este ano. Já para não falar que a vinda de uma nova fita de Allen é sempre alvo de um grande acontecimento e de grandes expectativas por parte de público e de crítica, que já vive sempre à espera, anualmente, de um novo bombom cinematográfico da autoria de um dos maiores mestres do Cinema Americano "livre" e tão perspicaz.

«Blue Jasmine» é um filme onde ouvimos diálogos "woodyallenianos" que já não se faziam aparecer há muito tempo (e se o cineasta recebeu o Oscar de Melhor Argumento Original com «Meia Noite em Paris», com este merecia o mesmo ou mais! Mas prefiro apostar todas as minhas certezas na Blanchett, é impossível alguém não ficar arrasado com a sua performance!), e possuindo toques de «Um Elétrico Chamado Desejo» (pelo pouco que conheço da peça de Tenessee Williams isso é notório), mas também de anteriores filmes de Allen, como «Alice» (mais uma crítica a uma elite social e a um certo modo de ser e estar para o "status") e todas as suas obras que lidam com temáticas amorosas ou de relacionamentos, constrói-se uma história tão rica em pormenores, sátira e inteligência como foram feitas poucas nos últimos tempos. É, talvez, um daqueles filmes "especiais" de Allen, onde sentimos aquele espírito que só as suas obras primas sabem transmitir a quem queira estar atento a elas. E com um fantástico elenco (não só com Blanchett a brilhar, mas também com os notáveis Peter Sarsgaard, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Sally Hawkins e Louis C.K - sendo que, para este último, o realizador já mostrou intenções de voltar a filmar com ele, mas para um papel não tão secundário -, entre tantos outros), «Blue Jasmine» recria o drama existencial que é o de toda a Humanidade, para além da busca do nosso papel na sociedade, que constantemente fazemos e da qual nunca desistimos, ou pelo menos nunca queremos desistir. Numa brilhante alusão à riqueza, ao mundo dos ricos e a todas as suas incongruências, Woody Allen conjuga-a muito bem com a vida da classe média e de todos os pontos que sejam possíveis, ainda, espicaçar na mesma. Jasmine, qual discípula dos inúmeros convidados sorrateiros das festas de Jay Gatsby na obra de F. Scott Fitzgerald, pretende, no passado, encontrar o seu lugar na alta sociedade, e no presente, não ter de se desabituar às rotinas que o mundo dos ricaços proporcionou e não ter de pensar que os tempos luxuosos vividos com o seu ex-marido nunca poderão voltar. Mas ela não quer, pura e simplesmente, olhar para as coisas e perceber que, agora, a situação é diferente, que está falida, e que o seu "dom" de gastadora viciada não para, mesmo que já não tenha dinheiro para continuar a dar nas vistas com as suas marcas caras e estupidamente "fashion" sem qualquer razão racional. O passado e o presente contrapõem-se constantemente, com Jasmine a mudar segundo as suas necessidades (dantes nunca falava com a irmã, ou desprezava-a descaradamente, e agora que precisa dela é como se tivessem sido sempre muito íntimas uma da outra - não conhecemos tantas pessoas que são assim, minhas amigas e meus amigos?) e a perceber que o passado ainda é presente... mas nas coisas indesejáveis que ela não quer recuperar do vasto núcleo de memórias que possui da sua vida anterior, e que ainda a afetam muito na atualidade cinematográfica da sua história, querendo aparentar que nunca teve esses problemas (mas a sua saúde, e a sua doença, não vai deixar que ela esconda bem esses traumas ainda tão vivos...).

«Blue Jasmine» é um filme sobre as máscaras dos outros, sobre as nossas máscaras, e também sobre as máscaras que usamos uns com os outros. Do mundo dos apertados, rígidos e desnecessários códigos sociais (onde um pequeno e acidental movimento pode dizer, a todos os convidados de uma festa, que o seu anfitrião já não tem tantas propriedades como antes, ou que mostrar uma mala da Chanel ou uma certa maneira de falar, arrogante e superficial, caracteriza o "status monetarium" da persona em questão), Jasmine tem que se adaptar ao mundo, mais livre mas não menos apertado, da classe média e de todos os seus problemas. A história de Jasmine mostra-nos como a riqueza muda as pessoas, antes e depois de uma pessoa ter passado pelas experiências que grandes somas de dinheiro podem proporcionar, num mundo onde ninguém é de confiança e onde nos podemos destruir de um momento para o outro de uma maneira assustadora. Com, mais uma vez, uma excecional e colorida fotografia que tem caracterizado os últimos filmes de Woody Allen (de maneira mais notável, em «Meia Noite em Paris»), «Blue Jasmine» intercala simplicidades e excessos de uma forma audaz, e que muitos não estariam à espera de ver num realizador que, insistem alguns ditos "especialistas", já deu tudo o que tinha a dar. De um extremo ao outro da vida social, viajamos com Jasmine e todas as personagens secundárias que com ela convivem, conhecendo cada vez mais ao pormenor a psicologia estranha e complexa de uma das figuras mais peculiares criadas pelo cérebro e pela caneta do cineasta, e surpreendendo-nos pelas múltiplas facetas em que a mesma se desdobra e que, em certos momentos da trama, nos parecem ser inacreditáveis. Ou que, pelo menos, Woody Allen foi inspirar-se para este filme pegando no caso de um nosso vizinho ou conhecido que conhecemos bem demais. Jasmine não quer ser inferiorizada, apesar de, depois de tanta ascensão social e de todas as (injustas) vantagens que a ela trouxeram e que ela não soube partilhar com quem estava mais próximo dela, ter-se instalado o declínio na sua vida que, ao que parece, não tem motivos para continuar sempre em "ação". O argumento de Woody Allen revela um lado espirituoso e astuto que, é preciso dizer, ele já não revelava há algum tempo (talvez desde «Match Point», ou em parte, em «Meia Noite em Paris»), e que dá ao filme aquela dimensão especial que, para mim, e para além de «Blue Jasmine», só «Ana e as Suas Irmãs», «Crimes e Escapadelas» e «Match Point» conseguiram conquistar: Woody fez aqui outro filme excecional, dos poucos que nenhum pessimista pode alegar que é mais uma prova da constante "repetição" entre os filmes mais recentes, menos originais mas não menos bons, da filmografia do cineasta, que aqui decidiu regressar ao seu país de origem, depois de uma temporada pela Europa onde filmou as suas obras e as suas ideias nos últimos anos. É impossível sair da sala de Cinema e ficar-se na mesma depois de se ver «Blue Jasmine»: ou se acha que se viu uma grande comédia, comparável ao "hit" do momento, «A Gaiola Dourada» (eu sei que os tempos estão difíceis e que as pessoas precisam, mais do que nunca, de rir. Mas não confundam coisas. Há momentos para humor no filme mas não é essa a dominante, e há muito mais para pensar depois, em casa ou para a vida, do que memórias de momentos hilariantes para contar aos amigos), ou então, percebe-se que acabou de se ver uma obra preciosa e verdadeiramente inovadora, em Woody Allen e no panorama moderno das fitas Americanas.

Jasmine é uma mulher que nunca se preparou para a vida real, e numa história repleta de sarcasmo existencial e de uma credibilidade tão forte que até por vezes assusta, ela é apenas uma alegoria para todo o género humano e para a sociedade americana, tão livre numas coisas mas tão ridícula noutras (como, aliás, é o caso de qualquer outra sociedade ou país - não, não vamos falar de Portugal, pois não? Ainda bem), como também é apenas um símbolo da profunda crise que o mundo ocidental atravessa, mas que, no mundo dos ricos, é quase como nada se passasse e os excessos e as festas pudessem continuar a ser concretizadas. «Blue Jasmine» é a influência da opinião dos outros em cada um de nós, e as coisas que estamos dispostos a fazer para mantermos o nosso lugar na pirâmidade estratificada do meio a que pertencemos. Mas devemos seguir os nossos sentimentos e as nossas ambições ou deixarmo-nos levar pela ansiedade do "status" e de tudo o que o mesmo representa? E mesmo que Woody Allen volte aos mesmos temas (principalmente a uma certa crítica de «Alice», como referi anteriormente), consegue sempre surpreender e, neste caso, de uma forma ainda maior. Jasmine deixou que um mundo construído com mentiras e/ou ilusões lhe levasse, quase que se pode dizer assim, a sua alma, e as transformações que ela experimenta, na sua relação com os outros e na sua relação consigo mesma, são um espelho de toda uma classe e das outras todas também, ou pelo menos, das pessoas que só querem, desesperada e estupidamente, a ela pertencer. É um filme de referência, uma das obras maiores de Woody Allen. Já expliquei tudo o que tinha a explicar, e que anotei fervorosamente em várias folhas de um bloco de notas durante a sessão. Por isso, resta apenas que agora vão ver esta magnífica peça cinematográfica.

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PostPosted: Thu Oct 17, 2013 5:11 pm    Post subject: Reply with quote

Frances Ha


Este é um grande grande filme e que, para minha sorte, foi a primeira crítica que escrevi para o Espalha Factos. Foi publicada há momentos e deixo aqui o link. Mas penso que pequenas pérolas como esta não valem por uma classificação, e doeu-me muito ter de lhe atribuir uma nota... Espero que fiquem convencidos, o filme vale mesmo a pena!
http://www.espalhafactos.com/2013/10/17/frances-ha-celebrar-a-alegria-da-vida/
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PostPosted: Fri Oct 18, 2013 11:44 am    Post subject: Reply with quote



Primeiro tomo da famosa "trilogia dos Cornettos" (cujo último filme, «The World's End», estreou este ano um pouco por todo o lado - menos em Portugal, como já se estava à espera...), «Shaun of the Dead» (o título português é demasiado mau para ser alguma vez mencionado nesta crítica) é uma interessante investida em retomar o espírito da comédia cinematográfica britânica para as tendências cinematográficas atuais e para as potencialidades criativas dos novos meios técnicos que o Cinema tem. Simon Pegg e Nick Frost, uma das duplas mais populares da comédia britânica (começaram brilhantemente no programa de sketches «Big Train» e «Spaced» foi a sitcom que deu a entender a grande química entre ambos - e este filme baseia-se em um dos seus episódios -, e que depois se estendeu a outros programas e filmes) protagoniza este filme de zombies que goza com o próprio género constantemente. Realizado por Edgar Wright (que também fez os dois outros seguintes volumes da trilogia), «Shaun of the Dead» mostrou que é ainda possível revolucionar a comédia no Cinema, e que não é ainda a televisão que domina toda a criatividade. Os três excêntricos filmes de Wright, Pegg e Frost deram uma nova frescura ao Cinema britânico e a ideias inovadoras que nunca tinham sido muito bem utilizadas para termos cómicos, mas que aqui resultam bem, e por vezes, de forma surpreendente. Numa história que se centra em dois amigos inseparáveis, Ed (Frost) e Shaun (Pegg), que danifica a sua relação amorosa por causa do espaço que dá a Ed, «Shaun of the Dead» é uma comédia romântica de zombies muito bem construída e engraçada, que depois se eleva a filme de terror pela quantidade de acontecimentos paranormais que acontecem na pequena cidade onde os dois moram, e que se torna numa pandemia mortífera que começa a afetar muitos dos que os rodeiam no quotidiano. Não sendo inovadora em cinematografia, é de louvar o esforço feito para que todos os elementos técnicos se conjuguem bem com os elevados disparates (com graça) do argumento do filme, sendo que a montagem joga admiravelmente com todo o ambiente de terror e de gargalhada proporcionado pela fita.

Se bem que a narrativa tenha uma estrutura demasiado lógica (devido à fórmula, esgotadíssima e repetidíssima, dos filmes de zombies), caindo muitas vezes numa previsibilidade excessiva (num argumento que parece querer ser a única coisa a sustentar todo o filme), «Shaun of the Dead» é uma obra que vale pelas boas piadas e pelos grandes atores que possui. É uma paródia engraçada, caricata e com alguns toques de brilhantismo e irreverência, e que, apesar da lógica, consegue brincar com os clichés dos filmes de terror, introduzindo-lhes novos elementos que os tornam mais interessantes. E por outro lado, tem clichés narrativos de que estamos à espera de ver (em todo o dramatismo que está inserido na narrativa), mas que vemos com delícia por causa das coisas boas que o filme nos proporciona. «Shaun of the Dead» é um filme onde temos de alinhar na estupidez do seu conteúdo e nos facilitismos que o mesmo nos provoca, para o podermos apreciar da melhor maneira possível. «Shaun of the Dead» é uma boa comédia, sem pretensões de ser mais do que aquilo que pode ser, aproveitando ao máximo a sua "pequenez" para criar um belo momento de entretenimento e de humor. Se fosse apenas um filme de zombies, talvez não seria sequer relevante no panorama cinematográfico, mas o toque de Wright, Pegg e Frost é que dá todo o espírito à fita que fez com que ela se tornasse muito popular (aliás, tal como os dois filmes seguintes da trilogia - pena é que por aqui as distribuidoras continuem de olhos fechados...). Repleto de dinamismo e, em parte, uma moral que parece ter sido recuperada dos filmes clássicos americanos (mas que é aqui reinventada para o século XXI), nomeadamente pelo foco na história da amizade forte entre Shaun e Ed, que nunca os poderá separar (e a amizade é também um denominador nos outros volumes da saga), «Shaun of the Dead» balanceia entre o drama, o terror e a pura comédia grotesca, "screwball" e/ou satírica (muito presente no final, que é mesmo a melhor forma de desfecho que poderia ser criada para um filme como este), e que deve ser visto com gosto e com boa disposição. E que, de tão simples, se torna uma interessante investida humorística que funciona e que é uma maravilha.

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PostPosted: Sat Oct 19, 2013 4:58 pm    Post subject: Reply with quote



Em vésperas de estrear o remake americano (assinado por Spike Lee e protagonizado por Josh Brolin), vale mesmo a pena visitar o filme original «Oldboy», porque desse não se pode ter dúvidas em relação à sua qualidade. Muito mais peculiar e sedutor do que qualquer imitação que se possa ser feita, por ser de uma cinematografia diferente e não tão sujeita a "plasticismos" como muita vezes vemos no circuito de Hollywood, «Oldboy» é uma obra vinda da Coreia do Sul e que, tendo sido feita há dez anos, continua ainda uma fita potente, aflitiva para o espectador, surpreendente e emocionante. É um thriller de cortar a respiração (e este cliché das críticas de cinema não é mencionado nesta só porque fica bem quando é relacionada com esse género cinematográfico, é porque é verdade também: «Oldboy» faz o público ficar de boca aberta e entusiasmado com cada novo passo original, brilhante e, em certos momentos, comovente, que a sua narrativa toma. A história fala de Oh Dae-Su, um homem que acorda e não sabe onde está, nem porque foi parar a um sítio desconhecido, nem como é que tudo se sucedeu. Por ali, num quarto fechado onde tem como companhia apenas uma TV, passa muito tempo (ou seja, vários e longos anos, para sua tristeza e simultânea fúria, principalmente porque, durante a sua longa estadia no dito quarto, a sua mulher morreu e a sua filha partiu para longe, e ele será acusado de um crime que não cometeu) e depois, sai de lá de repente, ainda cheio de coisas por esclarecer. E, tal como ele, nós pouco sabemos desta situação tão invulgar e que vem desprovida de qualquer explicação, e que nos faz ter tantas questões para responder, questões para as quais nunca encontramos resposta porque não encontramos os meios que precisamos para as dúvidas desaparecerem. O mistério prossegue e cada vez ficamos mais apavoradas, à medida de Oh Dae-Su descobre e nos mostra mais novos pormenores que podem esclarecer as dúvidas, conduzindo a um final que tem tanto de estimulante, como de profundamente arrebatador. No fundo, tudo foi milimetricamente bem planeado, e nada foi posto ao acaso. É tudo um plano com um certo objetivo, com o seu quê de assustador e de preverso e chocante, que faz a parte do thriller do filme tão ou mais intensa que muitas outras obras incluídas nesse género.

«Oldboy» é uma obra prima moderna, daquelas que fascina metade do mundo e que é repudiada pela outra, talvez mais ao seu estilo pouco usual, brutal, bizarro até, e aparentemente indisciplinado, muita gente tenha ficado de pé atrás, e ainda por cima, por ter sido Quentin Tarantino quem ajudou a internacionalizar o filme, algo que é usado por muitos para explicar porque não gostaram desta obra (e os seus gostos cinematográficos são muito invulgares, diga-se de passagem). Mas é um filme a que ninguém consegue ficar indiferente, ou pelo menos, não deve haver uma alminha sequer neste mundo que tenha continuado a ver da mesma maneira depois de visionar «Oldboy». E se pusermos a violência, controvérsia e o brilhantismo causado por essa violência e essa controvérsia de parte, o filme pode ser visto como uma espécie de «O Conde de Monte Cristo» moderno, mas com muito mais sangue, violência (expressa de formas tão marcadas e surpreendentemente icónicas nas cenas que envolvem um certo martelo) e reviravoltas inesperadas no argumento e nas personagens do mesmo. A vingança é um prato que se serve frio e são muitos os que querem dar esse prato para os outros provarem... com uma fascinante banda sonora e uma impecável montagem e mise-en-scène, «Oldboy» é um filme esteticamente forte e arrepiantemente construído, repleto de suspense e twists avassaladores (não só de "pressão" dramática ou emocional, como também nas pequenas atitudes que Oh Dae-Su tem no seu contacto com o quarto ou quando regressa, mais tarde, ao mundo real/exterior), sensacional pela sua expressividade e, mais importante até, pela forma inovadora que dá à sua expressão, ao seu conteúdo e ao seu estilo muito próprio e único. Depois de «Oldboy», o Cinema não pôde voltar a ser o mesmo e, com ou sem remakes e reinvenções de um conceito que surgiu originalmente num manga japonês (e de que o filme adapta) e que tão bem foi transposto para o grande ecrã, utilizando meios muito originais, é esta a obra que marcou o público e a história de obsessões, amor e família, que transporta tão eficazmente. «Oldboy» é uma fita de culto, uma obra cinematográfica aplaudida de pé por aqueles que não têm grande influência na imprensa especializada, mas que gostam de ver bons filmes. E fizeram bem.

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PostPosted: Fri Oct 25, 2013 12:36 pm    Post subject: Reply with quote


Quote:
Baseado num caso real que abalou o mundo, Capitão Phillips é a nova investida do realizador Paul Greengrass, especialista em grandes filmes repletos de ação (como as sequelas da saga de Jason Bourne). Protagonizado por Tom Hanks, este filme promete ser um dos mais falados da temporada de Oscars, ou pelo menos, no box-office cinematográfico.
Em 2009, um acontecimento dramático surpreendeu o mundo das notícias: o ataque de um pequeno grupo de piratas somalis a um cargueiro. O caso foi acompanhado de fio a pavio desde que foi o primeiro assalto a uma embarcação americana deste tipo em duzentos anos. Para salvar a sua tripulação, o Capitão aceita ser refém dos piratas. Só que uma série de acontecimentos vai estragar o plano de salvação dos americanos, e o plano de vitória dos somalis…
E o que Capitão Phillips faz é recontar, passo a passo, como tudo aconteceu, na perspetiva do próprio Capitão do navio (o tal que dá nome ao filme, e que é interpretado por Tom Hanks, que continua em grande forma, felizmente e ao contrário de algumas más línguas) e dos seus ocupantes, que terão de resolver o problema e tentar compreender o que leva aqueles assaltantes a agirem daquela maneira.
Se há um fator que é importante destacar em Capitão Phillips (e que é uma característica comum de outros filmes de Paul Greengrass, como é o caso de Voo 93 – as semelhanças de montagem e de enredo são notórias) é a forma como proporciona uma visão muito credível e sincera dos acontecimentos dramáticos ao espectador. E mesmo que se afaste muito da realidade dos factos, a obra proporciona uma experiência de proximidade para com o espectador, que quase se sente ali, naquele cenário marítimo em que tanta coisa acontece e onde tudo está em jogo para aquela atribulada tripulação americana.
Filmes como Capitão Phillips são feitos para agradar a um certo tipo de mercado e a um público cada vez mais exigente. Não vemos este filme a apelar à verdadeira originalidade cinematográfica, já que predomina um estilo muito televisivo (muitas cenas dos filmes de Greengrass são difíceis de distinguir de um qualquer momento de um episódio de 24 ou de Homeland) que acaba, sem querer, por se focar demasiado no lado americano da questão (e mais do que isso, nos clichés que estão associados ao patriotismo americano, tal qual nos são apresentados em muitos grandes filmes de ação de sucesso que já fazem parte da cultura popular).
Mas no fim, Capitão Phillips surpreende, porque não é demasiado “americanizado” na sua totalidade. Apesar da utilização de algumas ideias tão pouco criativas e já tão repetidamente refeitas no grande ecrã (como muitos dos diálogos das personagens americanas), o filme mostra-nos, no fundo, que embora os EUA sejam um dos países mais poderosos do Mundo, não é indestrutível e invencível, não deixando nunca de estar no centro das atenções do público e, mesmo, das ambições e sonhos de muitas pessoas do resto do Mundo (como nos mostra o exemplo de um dos piratas somalis, que deseja ir para os EUA e cai na ilusão criada pelas pessoas que o obrigam a fazer aqueles trabalhos sujos).
O que se destaca mais no filme são os seus atores. A acompanhar Hanks há todo um rol de atores secundários que cumprem o seu papel de forma exemplar (atribui-se destaque especial para o trio de intérpretes que são os “piratas” somalis). A música, arrepiante e palpitante, está presente ao longo do filme e revela-se extremamente bem composta por Henry Jackman (que também compôs para O Cavaleiro das Trevas), e merece também uma menção especial, pois sabe captar de forma brilhante o espírito da fita e o que esta pede em termos melódicos, que tanto ajudam a captar o espectador em certos momentos que, com ausência de acompanhamento, perderiam grande parte do seu “poder”.
Contudo, a realização de Greengrass e o uso de uma montagem excessiva e de planos frenéticos e descontrolados não ajudam a melhorar Capitão Phillips. Por outro lado, há a ação tensa que cumpre o objetivo de cativar o espectador sem ser demasiado ambicioso, e que nos faz ver que, durante as (pouco) mais de duas horas que tem a fita, estamos na presença de uma obra que sabe encontrar-se com os desejos da sua audiência, e que acaba por conseguir agradar, mesmo que diga muito mais ao patriotismo americano (e do facto de, neste e noutros filmes, os EUA salvarem o dia) do que à vida quotidiana do típico português. Mas que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu próximo de um filme sobre uma cultura diferente da sua!
Em Capitão Phillips vemos uma boa obra cinematográfica (mesmo que tenha mais TV do que Sétima Arte), que nos corta a respiração pela sua alta pressão. Encaremos a verdade: só o Cinema Americano nos consegue manipular assim, e mesmo que batam sempre na mesma tecla, eles conseguem concretizar novas maneiras de nos conseguirem agradar. É um filme cujo trailer diz tudo, ou seja, é dos poucos que não dá a entender que é diferente da obra que está a promover. Por isso já se sabe do que se pode estar à espera. Mas esta longa-metragem agradável e despretensiosa ainda nos coloca uma ou outra questão social interessante na sua génese, e por isso também vale a pena. Nem só de complexidades vive a Arte, nem de grandes obras que mudam o pensamento da Humanidade. Felizmente, há também espaço para fitas como esta.

7.5/10


In http://www.espalhafactos.com/2013/10/24/capitao-phillips-um-retrato-palpitante-da-atualidade/ - likem, partilhem e comentem! Smile
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PostPosted: Sat Nov 02, 2013 12:20 am    Post subject: Reply with quote



Eis uma pequena grande surpresa entre as muitas estreias que, esta semana, inundam de novidades as salas de Cinema nacionais: «Dá Tempo ao Tempo» é uma deliciosa comédia que, tendo tons de sci-fi (que aos mais obcecados em comparar filmes com outros filmes, poderá ter parecenças com as aventuras de Bill Murray no clássico do humor americano «Groundhog Day» - porque a ela vai beber um pouco na narrativa, na mensagem filosófica e no romantismo fofinho), é uma aposta inteligente e completamente surpreendente de uma das maiores mentes da comédia britânica, Richard Curtis. Foi ele que escreveu muitos dos hilariantes diálogos de «Black Adder», as patetas desventuras d' «A Vigária de Dibley» e as histórias mais plásticas e "softs" de «Quatro Casamentos e um Funeral», «Notting Hill» e «O Amor Acontece» (tendo neste último título o papel de realizador). É um homem que possui uma criatividade imparável e que, felizmente, parece nunca querer esgotar-se. E «Dá Tempo ao Tempo» quer mesmo ser mais uma prova dessa inventividade constante deste grande cómico inglês, que tanto nos fez e faz rir com as suas loucas ideias, mas que são sempre do agrado dos seus seguidores (ou pelo menos, da maior parte deles).

«Dá Tempo ao Tempo» versa sobre uma família invulgar (e com o seu quê de particular) e um segredo que diz respeito a todos os homens da mesma: o dom de poderem retroceder no tempo. Tim (Domhall Gleeson) é um jovem de 21 anos, insatisfeito consigo próprio que, ao tomar conhecimento deste segredo pelo Pai (Bill Nighy) começa não só a aperfeiçoar muitos momentos do seu quotidiano (e para o bem dos que o rodeiam) e tenta, acima de tudo, utilizar esta dádiva para poder encontrar o amor. É esse o dia que mudará tudo nesta personagem, para sempre. E assim se tem uma premissa para uma engraçada e divertida comédia, que parodia e aprofunda ao mesmo tempo as relações humanas ao melhor estilo britânico, e que nos faz rir e pensar simultaneamente na nossa vida. Repleto de pequenas piadas que envolvem as trapalhadas em que Tim se envolve, e que o levam mais tarde a conhecer Mary (Rachel McAdams) ou... a ter de voltar a conhecer! Caricato, simples e tocante, «Dá Tempo ao Tempo» aumenta a sua complexidade à medida que nos deixamos surpreender pelos seus atores e pela sua narrativa, e quando ficamos a ver que esta, afinal, não é mais uma comédia de Curtis ao jeito das de Hugh Grant, onde tudo acaba bem e com um grande casamento, não deixando, por isso, apenas uma marca de bom entretenimento, que desaparece facilmente no espectador. Este é um daqueles filmes raros que deixam uma sensação especial que muitos filmes excelentes não conseguem transmitir nas emoções de quem os vê. Vemos a vida de Tim e dos seus conhecidos mudar pelas pequenas alterações que ele vai fazendo aqui e ali (e as confusões que as suas viagens temporais causam são delirantes), e vemos o romantismo como só os bons filmes cómicos nos sabem mostrar: da forma mais bonita, e que não passa por ideias forçadas ou "happy endings" para ninguém ficar com remorsos no final da sessão de Cinema. E o humor inglês há muito tempo que não dava tão fortes sinais de vida: estas piadas tipicamente britânicas, desconcertantes e tão precisamente refinadas e construídas, são um deleite seriamente provocador.

Com um argumento hilariante e que tem cenas absolutamente divinais em termos narrativos, «Dá Tempo ao Tempo» tem muitos momentos típicos destas comédias românticas, mas que ganham uma nova graça e um tom mais refinado graças à pena de Richard Curtis. Afinal, não é a vida também um conjunto de repetições a que nos acostumamos, mas que ganham novas formas? E não será que os verdadeiros problemas são coisas com que nunca nos preocupamos? Um filme cheio de grandes e fabulosos atores, uma comédia adorável e encantadora que acaba por ser a tragicomédia da existência humana, onde o burlesco se confunde com o real, onde a nossa vida se confunde com os desejos e ambições dos outros. E onde ainda há espaço para hipotéticos finais felizes, que nós construímos e concretizamos... se quisermos, sem o auxílio de qualquer viagem no tempo. Além de ser a comédia mais complexa de Richard Curtis, «Dá Tempo ao Tempo» é, resumindo e concluindo, o seu trabalho mais bem conseguido no Cinema. Recheado de espírito "carpe diem", esta é uma comédia genuína que vai ao fundo do coração humano. A comédia cinematográfica não morreu, e eis aqui um exemplo dessa "sobrevivência". Podemos talvez não conseguir consertar, na realidade e ao contrário de Tim, tudo como queremos, mas temos ainda a hipótese de ficarmos deslumbrados com filmes assim.

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PostPosted: Sat Nov 02, 2013 12:49 pm    Post subject: Reply with quote



«História de Gangsters», um dos melhores filmes dos irmãos Coen, é uma curiosa e potente incursão da dupla de cineastas pelo universo dos filmes de crime que dizem tanto à alma da Sétima Arte americana (desde James Cagney e Edward G. Robinson aos mafiosos de Martin Scorsese, passando também pelas tentativas mais recentes de ressuscitar o género, como «Inimigos Públicos» ou «Força Anti-Crime»), que filmam os criminosos à sua maneira, ou seja, com todo aquele tom negro e arrebatador que caracteriza os seus filmes mais bem conseguidos (sim, porque mesmo que eles sejam muito bons a fazer comédia, é o lado "noir" dos Coen que mostra a verdadeira genialidade da sua cinematografia - veja-se o caso mais representativo e verdadeiramente "obra primaico", «Blood Simple - Sangue por Sangue»). O que os irmãos fazem é revitalizar o género, que muitos insistem em considerar (injustamente) datado e despropositado, não pegando no estilo de outros autores que trabalharam os gangsters no Cinema (para além de Scorsese saliente-se Raoul Walsh, Billy Wilder, Michael Curtiz, Francis Ford Coppola, entre outros), mas trabalhando-o com todas as suas marcas de estilo e acrescentando outras. «História de Gangsters» é talvez um misto entre o drama repleto de diálogos à David Mamet e a profundidade e a tragédia do primeiro capítulo de «O Padrinho». Este é talvez um dos títulos mais convincentes e perturbantes dos Coen, e está cheio de veteranos das suas fitas (John Turturro, Steve Buscemi, etc) e algumas excelentes aquisições (como Albert Finney e Gabriel Byrne), grandes diálogos e grandes personagens num mundo obcecado com a corrupção e o jogo de interesses pessoais que rodeia cada uma das "sub-plots" em jogo, interesses esses que acabam quase inevitavelmente em grandes festins de pancadaria e de tiro ao alvo. Ética não é uma palavra que conste no dicionário de «História de Gangsters», nem no caráter de nenhuma das suas personagens (umas mais hipócritas do que outras), que são acompanhadas por uma grande música (composta por Carter Burwell, que fez também as melodias para outras fitas dos Coen) e uma impecável cinematografia, que ambientam tão bem esta história de máfias irlandesas durante os tempos áureos (ou dramáticos) em que a Lei Seca estava em vigor nos Estados Unidos da América.

Dois líderes e o capanga de cada um deles, eis a temática central de «História de Gangsters», que maneja muito bem todas as circunstâncias e brigas que envolvem cada um dos dois gangues mafiosos. Tom (Byrne), o "caporegime" de Leo (Finney) é o protagonista do filme e quem vai estar a comandar, no meio de algumas mentiras e resoluções duvidosas, uma série de planos para se livrar de alguns problemas financeiros e pessoais (que incluem um "affaire" extra-conjugal com a mulher do seu chefe). Ele é uma espécie de Rick do «Casablanca», mas em versão criminoso inconveniente. O filme possui um tom sarcástico, realista e sincero, através desta personagem que pouco se importa com a honra e o prestígio de quem o rodeia, e que só quer proteger-se no meio de uma encruzilhada de gangsters. Com um argumento dinâmico e uma ultra-violência que se opõe aos mais brilhantes momentos de pura beleza visual que o filme nos faz contemplar, «História de Gangsters» é uma obra fulminante onde nem tudo o que parece o é na realidade. A luta de poder entre os gangues é um bom pretexto para os irmãos Coen criarem uma das suas obras mais originais e geniais, com ideias completamente insólitas (algo típico nesta dupla de realizadores/argumentistas), que nos fazem rir quando não estávamos à espera, ou que nos fazem ficar impressionados quando não damos por isso. «História de Gangsters» é uma obra completamente recheada de pura adrenalina, com planos e cenas brilhantes (destaque-se, acima de todo o brilhantismo, o magnífico final) no mundo da corrupção clandestina do tráfico do álcool e das influências criadas por certos grupos ligados a essa venda ilegal de bebidas falsificadas. O filme é um festim para os admiradores dos Coen, dos clássicos filmes de gangsters com Cagney ou mesmo das obras mais recentes com estes criminosos. É uma fita deliciosa que é uma das mais criativas dos irmãos.

* * * * 1/2
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rui sousa



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PostPosted: Thu Nov 07, 2013 10:06 pm    Post subject: Reply with quote

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Last Vegas: O passado e o presente da amizade

Para quem achava que Robert de Niro, Michael Douglas, Morgan Freeman e Kevin Kline já não tinham nada para nos oferecer, eis que chega um filme que contraria esse preconceito: Last Vegas – Despedida de Arromba é o encontro cinematográfico entre quatro grandes lendas de Hollywood, que nos faz rir e pensar no envelhecimento e no poder das grandes amizades.
Billy vai casar e convida três grandes amigos de longa data para a sua despedida de solteiro em Las Vegas. No reencontro entre os quatro, que se conhecem desde os tempos de juventude, todos se apercebem dos efeitos do envelhecimento e da passagem do tempo nas suas vidas. Cada um dos quatro amigos seguiu rumos diferentes nas suas vidas e, apesar da longa duração desta amizade, existem ainda algumas feridas que o tempo não ajudou a sarar…
Last Vegas é um filme para divertir o espectador com o divertimento dos quatro grandes atores que protagonizam esta história que, mesmo parecendo semelhante a tantos outros filmes do género que os EUA produzem a cada ano, faz a diferença pela nova abordagem e pela qualidade das interpretações. Iniciando com uma pequena cena de abertura, em que vemos os quatro amigos nos seus tempos de juventude, e passando logo para o tempo presente – cinquenta e oito anos depois -, Last Vegas prova ser não só um filme cómico que está bem conseguido, como consegue ser também uma reflexão inteligente e cativante sobre a passagem do tempo e os problemas que acontecem a toda e qualquer amizade.
Realizado por Jon Turteltaub (responsável por alguns blockbusters americanos que lucraram bastante nas bilheteiras, como os dois filmes da saga O Tesouro e um terceiro volume em preparação) e com argumento de Dan Fogelman (autor dos argumentos dos dois filmes de Carros, da Disney e dos estúdios PIXAR), este filme traz uma nova abordagem às típicas comédias americanas, juntando este elenco de luxo para uma situação vulgar, mas que com as suas presenças ganha toda uma nova invulgaridade.
As personagens de Last Vegas não querem renegar-se à sua idade e às condições físicas em que a mesma os deixou, e o filme serve, por isso, não só para brincar com os próprios atores e com a idade a que eles chegaram, como também para nos inquietar sobre a questão do envelhecimento. Será que nos damos conta que, apesar da idade, as pessoas não querem perder a sua própria liberdade e o gosto que têm pelas alegrias que a vida lhes proporciona?
Esta longa-metragem é, por isso, uma mistura entre a comédia e o drama, com as diferentes formas de encarar a velhice que nos são apresentadas, e que nos tocam ou nos fazem rir sem nos darmos verdadeiramente conta do significado de cada gesto e de cada atitude das personagens. Não estamos a ver, em Last Vegas, apenas uma comédia de domingo à tarde, sensaborona, esquecível e completamente irrelevante. É que, ao contrário do que muitos críticos americanos apontaram, esta não se trata de uma versão de A Ressaca com atores mais velhos. Felizmente, Last Vegas tem muito que se lhe diga, e isso não abrange apenas o seu tom irreverente e divertido.
Sendo um completo e sensacional cartão de visita às atrações (e seduções) que a cidade de Los Angeles pode proporcionar aos seus visitantes, e mesmo que possua algumas piadas mais simplistas e convencionais, é impossível não gostar dos papéis e das características das personagens dos quatro gigantes atores que protagonizam esta fita. Com muitas brincadeiras e alguma seriedade (eis a fórmula para se aproveitar a vida ao máximo!), Last Vegas tem também uma candura e um espírito que lhe tiram o estatuto de simples comédia banal e “pipoqueira”.
As mesmas fórmulas cinematográficas utilizadas pelo filme ganham um novo prestígio e uma vida diferente com este excecional elenco, auxiliado também pelas caricatas e emocionantes cenas do argumento (algumas delas estão escritas de uma forma brilhante), nesta bela surpresa de Hollywood (que quando quer, ainda consegue surpreender os espectadores) que vem trazer também uma lufada de ar fresco às carreiras dos seus intérpretes.
Last Vegas é um filme simples e bonito que nos fascina pela química espantosa entre os seus atores e pelo espírito alegre e profundo que traz aos seus espectadores. Há filmes que são obras primas intemporais, e depois há estas obras que, não sendo perfeitas, nos conseguem tocar em partes escondidas do nosso coração, e na nossa rebeldia interior, que queremos tanto esconder das pessoas que nos rodeiam.
Mais do que uma comédia salpicada de drama que serve bom entretenimento e cuja duração voa num instante, quando saímos da sala de Cinema, uma coisa é certa: percebemos que a idade, e as circunstâncias mais ou menos boas com que nos deparamos durante a nossa existência, não nos conseguem tirar a alma.

7.5/10


In http://www.espalhafactos.com/2013/11/06/last-vegas-o-passado-e-o-presente-da-amizade/

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Até Amanhã, Camaradas: A Televisão não é Cinema

Para comemorar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, o realizador Joaquim Leitão pegou na sua minissérie de 2005 baseada num livro do líder do PCP, Até Amanhã, Camaradas e, das cinco horas de duração da mesma, fez uma reformulação com três para o Cinema. Os resultados não são os melhores, porque mesmo que o conteúdo televisivo tenha qualidade, não é isso que o torna adaptável para o grande ecrã.
Até Amanhã, Camaradas é a adaptação do livro homónimo de Manuel Tiago (o pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, com o qual assinou também Cinco Dias, Cinco Noites, levado ao Cinema por José Fonseca e Costa) que nos conta as histórias de vários membros do Partido Comunista Português e as suas desavenças com o Estado Novo durante os primeiros anos da década de 40. Enquanto o mundo lidava com a II Guerra Mundial, a ditadura portuguesa é alvo das lutas populares, das revoltas e contestações que se vivenciaram no Vale do Tejo em 1944, onde se cruzarão personagens, vidas e ambições futuras distintas.
Escrito por Luís Filipe Rocha (argumentista e realizador de Camarate, Adeus, Pai, Sinais de Fogo, entre outros) e realizado por Joaquim Leitão, de Adão e Eva, Tentação e, mais recentemente, Quarta Divisão, a minissérie, no ano da sua estreia, tornou-se num dos maiores sucessos do ano para a SIC, que a emitiu e produziu, e para comemorar os 100 anos do nascimento do autor do livro que lhe deu origem, estreia agora nas salas com uma nova versão, mais curta, mas muito menos interessante.
Não esqueçamos também que, sendo uma série televisiva, esta foi gravada especialmente para este meio, que nada tem a ver com a arte cinematográfica em termos narrativos e visuais. Senão vejamos: Até Amanhã, Camaradas foi constituída por seis episódios, cada um deles com cerca de 50 minutos, e onde as histórias são construídas em função dessa duração e em função da lógica de cada episódio.
Em filme de 180 minutos, sentimos uma narrativa apressada, onde acontecimentos e histórias de personagens são “comidos” sem dó nem piedade, triturados de forma acelerada e incongruente, e entregues ao espectador num prato confuso e cansativo, pela rapidez como trata cada uma das cenas. Ficamos sem perceber como é que algumas personagens surgiram ou onde foram parar, e algumas cenas verdadeiramente inúteis para o Cinema são melhor aproveitadas do que aquelas que teriam mais interesse na sala escura, que já fica afetada pela qualidade da película da série, filmada para TV, não encaixar normalmente aos ajustes das definições do ecrã cinematográfico.
Assim, ao contrário de um fenómeno como A Melhor Juventude, o épico de Marco Tullio Giordana, a produção portuguesa não funciona como produto televisivo e cinematográfico. Se a princípio o filme italiano foi uma aposta televisiva com quase 400 minutos, foi depois para as salas, com um corte reduzido (menos meia hora de série), e mesmo assim o filme funciona de forma maravilhosa. E talvez o problema maior da versão cinematográfica de Até Amanhã, Camaradas seja mesmo o de ter sido cortado demais, o que consequentemente, torna-o demasiado longo e curto ao mesmo tempo: longo por perder demasiados minutos com futilidades, e curto porque deixou muitas coisas relevantes por contar.
A qualidade da produção é portanto prejudicada por este resumo a alta velocidade de uma obra longa e complexa, que sabe a pouco e que não deixa ao espectador muito para se recordar, a não ser a falta de ritmo e coerência que o filme possui. Não teria sido melhor ideia uma projeção integral da série, se Joaquim Leitão queria tanto levar este seu trabalho para as salas?
Num ambiente onde a emoção se envolve demasiadas vezes com a política e as convicções destes trabalhadores, Até Amanhã, Camaradas não envolve muitas caricaturas humanas, e centra o seu propósito na condução das lutas clandestinas do PCP , com algumas subplots de bastidores, onde o romantismo e o companheirismo entre alguns dos protagonistas da trama ganha maiores e mais profundos contornos, alguns por vezes bastante exagerados.
Mas há que salientar os lados positivos: mais do que um panfleto político ou uma visão ficcionada da realidade política portuguesa, Até Amanhã, Camaradas constitui um precioso documento histórico, pela qualidade e o rigor da reconstituição da época, dos costumes e das gentes portuguesas. Retrata-se o Portugal de então e as dificuldades impostas pelo regime de uma forma muito credível e algo sensível, mesmo com todas as liberdades reproduzidas do livro original, onde se dá forte atenção ao secretismo e à clandestinidade das reuniões do PCP e aos efeitos das mesmas nos seus representantes. Esperança é uma palavra-chave da história, assim como seguir fielmente os ideais em que acreditamos. E esta mensagem não cabe aos comunistas, mas a todas as esferas da política, da sociedade, dos valores e da ética dos seres humanos.
E os grandes atores que compõem a trama, e que lhe dão uma graça especial e com algo de inesquecível, fazem outro fator positivo desta obra. Vemos Gonçalo Waddington, Paulo Pires, Adriano Luz, Leonor Seixas, entre outros grandes artistas, a terem aqui alguns dos melhores momentos das suas carreiras televisivas. E dá gosto ver a qualidade das representações e o espírito emocionante com que os atores encarnam estas suas personagens.
Apesar da falta de solidez e de ritmo da obra, e depois de um início demasiado solto, até se conseguem ver e acompanhar com algum gosto muitas das histórias do filme. Mas nunca nos esquecemos daquilo que nos dececiona, e nos cansa, nesta condensação do programa de televisão. No Cinema, Até Amanhã, Camaradas é um longo trailer que parece não ter fim, mas que consegue envolver o espectador nas suas partes mais bem conseguidas (pelo menos, na montagem para esta versão). E fica ao menos a boa intenção de se querer recuperar uma obra que marcou a televisão portuguesa. Pena é que não tenha sido bem concretizada.

6.5/10


In http://www.espalhafactos.com/2013/11/07/ate-amanha-camaradas-a-televisao-nao-e-cinema/
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PostPosted: Thu Nov 14, 2013 11:01 pm    Post subject: Reply with quote



«Malavita» (denominado «The Family» nos states talvez para melhores resultados comerciais - tal como aconteceu, por exemplo, com a adaptação do título de «Harry Potter e a Pedra Filosofal» para o mercado americano na sua estreia original) é o regresso ao mundo da máfia do lendário Robert de Niro. Muitos anos depois de ter feito clássicos incontornáveis como «O Padrinho - Parte II» e «Tudo Bons Rapazes» (referenciado de uma forma curiosa nesta fita), de Niro parece estar de volta a uma série de papéis mais relevantes, após uma época mais morta da sua carreira cinematográfica. Depois de uma considerável surpresa com «Last Vegas», «Malavita» é mais uma prova do triunfal regresso do excelente ator. O filme de Luc Besson, realizador conhecido pela ação cinematográfica fulgurante e, muitas vezes, excessiva que rodeia as suas obras (veja-se «Nikita - Dura de Matar», ou um exemplo com muito mais qualidade, «Léon, o Profissional»), assina em «Malavita» um filme de gangsters muito decente, com bons e maus momentos técnicos onde, basicamente, se tenta desconstruir esse género de filmes contando uma história com o seu quê de desinspiração e banalidade. Com produção executiva de Martin Scorsese (daí a referência a «Goodfellas»?) e uma intrigante banda sonora, «Malavita» flutua entre a comédia (onde triunfa muito mais) e a ação a alta velocidade, no retrato de uma família disfuncional que tem de fugir da vingança de um grupo mafioso cujo líder foi denunciado pelo Pai (Robert de Niro). E mesmo que não seja mais do que um objeto de mero interesse do "culto" dos filmes da máfia, é agradável voltar a vê-la a ser retratada no Cinema de uma forma algo relevante e perspicaz.

Com algumas boas invenções de montagem e umas boas porções de diálogos engraçados e interessantes (incluídos em situações vulgares, mas que ganham "sumo" pelo determinado contexto que nos é apresentado), «Malavita» é uma obra que mostra uma violência exacerbada que tanto nos faz rir como, em certos momentos, nos causa um tédio descomunal (e principalmente no final, que parece ter sido construído usando todas as razões menos convincentes possíveis que pudessem ser inventadas, os pretextos para justificar o rumo que decidiram dar à história). Os artifícios visuais de Besson enchem a medida do ecrã, mas não as exigências do espectador que, apesar de gostar de ver a grandiosidade do Cinema, sabe que o mesmo não se faz de cenas aleatórias e incongruentes de grandeza. A justa homenagem aos gangsters do Cinema que é tentada levar a cabo com «Malavita» perde pela inconsistência da estrutura do filme, que só ganham mais "pinta" quando o argumento caricatura alguns elementos que começámos a associar à máfia do grande ecrã: os métodos radicais, as subtilezas das suas vinganças, os excessos da organização e dos seus membros... além de que de Niro brinca também um pouco com a "persona" que criou nesse tipo de fitas, o que é curioso de se contemplar. Cómico, despretensioso, rebuscado às toneladas e repleto de um falso estilo que até dá gosto de ser visto, «Malavita» poderia ter brilhantismo se o seu todo não deixasse um vazio após o visionamento. Falta muita coisa ao filme: uma história mais bem estruturada, que poderia ser tão bem explorada pela "essência" que Besson quis dar a esta trama (e que tem mesmo algo de Scorsese). Mas vê-se com prazer, e até passa muito depressa. E o melhor mesmo é ver que de Niro ainda quer mostrar aos seus milhões de fãs que continua a ser um ator cinematograficamente credível, entrando agora em projetos mais interessantes do que os elaborados anteriormente. Mas agora isto tem de prosseguir numa escalada evolutiva: esperamos obras melhores em tudo o resto, e que não se assentem só no poder do ator...

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PostPosted: Fri Nov 15, 2013 2:11 pm    Post subject: Reply with quote

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A Mentira de Armstrong: A queda de uma grande ilusão

Pouco tempo depois de ter sido finalmente desmascarada, a fraude de Lance Armstrong é agora levada ao ecrã, através de um interessante e revelador documentário que mostra o poder do mediatismo do ciclista e a manipulação exercida sobre os seus fãs de todo o mundo.
A Mentira de Armstrong explora profundamente toda a controvérsia que rodeou a carreira de Lance Armstrong e a construção de uma das maiores mentiras da História do Desporto. A princípio, a ideia do realizador Alex Gibney passava por filmar o regresso da figura ao ciclismo em 2009. Mas o conceito acabou por ser posto de parte, até que, no princípio de 2013, Lance Armstrong finalmente assumiu a fraude que protagonizou como profissional. E o realizador decidiu aproveitar as filmagens de 2009 para esclarecer a mentira que enganou muitas pessoas (incluindo-o também). O resultado é uma abordagem de proporções inimagináveis a Armstrong, à mentira e aos que nela estiveram envolvidos, e às transformações sociais e económicas que a mesma originou no ciclismo e nos media.
O filme começa com um excerto da surpreendente entrevista de Lance Armstrong à apresentadora Oprah Winfrey em Janeiro de 2013, que desencadeou a grande polémica que finalmente desmascarou o ciclista. A partir daí, todas as ilusões caíram, toda a fama de Armstrong caiu e a credibilidade da personalidade deixou de existir de forma total. E esse é o ponto de partida para Alex Gibney: explorar toda a história, partindo também do seu ponto de vista e de toda a mentira criada pelo ciclista para o suposto documentário de 2009.
O realizador (responsável por outros documentários polémicos como Freakonomics: O Estranho Mundo da Economia e Taxi to the Dark Side, galardoado com um Oscar) confronta não só o passado de glória com o presente de queda de Armstrong, como também aproveitou para entrevistar o seu alvo de novo, mas em 2013, e assim, põe em confronto a mentira e a total realidade dos factos. E, em cada cena, nunca deixa o espectador perder o estado de choque e/ou de surpresa, pela quantidade de dados que nos são revelados e por podermos construir mentalmente todo o puzzle que esteve por trás de uma carreira que, para muitos especialistas desportivos, era demasiado boa para ser verdade. E tinham razão.
A verdade incómoda d’A Mentira de Armstrong tenta esclarecer o porquê do regresso do ciclista ao mundo da competição em 2009 e como é que o super homem do desporto fez batota tantas vezes sem nunca conseguir atrair tanta atenção dos media como agora. É um documentário sobre como se escondeu a verdade do público, apesar das múltiplas investidas de certos jornais e entidades, que avançaram com alguns dados sobre Armstrong que não tiveram a atenção mediática que mereciam.
Mas não é só da personagem que vive o documentário e o seu ataque direto, bem informado e perspicaz: há uma crítica subjacente feita à opinião pública e às pessoas que poderão ter sido demasiado ingénuas ao acreditarem na ilusão – o poder da influência e da história de vida de Lance Armstrong foi uma boa arma para o credibilizar junto dos seus admiradores, que viam nele um exemplo de esperança e perseverança na luta contra o cancro e por querer voltar ao ciclismo.
A Mentira de Armstrong explora os dois surpreendentes lados da questão polémica e todos os envolvidos na grande máquina ilusória que envolveu um dos maiores ciclistas de sempre, a nível temporário. É uma história de Poder que disseca todas as mentiras e os atores desta grande peça que se prolongou por uma incrível quantidade de tempo, deixando consequências arrasadoras para muitos dos seus participantes. E será que há ainda mais coisas para serem desmentidas e descobertas? Haverão mais segredos por revelar?
O que sabemos é que a manipulação foi longa e bem planeada, e que os seus efeitos continuam a sentir-se e a serem um exemplo da fragilidade das grandes estruturas sérias que pensam estar protegidas de fraudes como a de Armstrong. E tudo fica registado neste documentário bem estruturado, inteligentemente filmado. Tem como único contra a sua duração demasiado longa, mas é um filme que se vê com gosto e interesse (que cresce à medida dos acontecimentos relatados), onde vemos a fama a ser usada para cobrir a ilusão em que tantas pessoas acreditaram e que tanto dinheiro moveu a nível mundial.
A Mentira de Armstrong é uma fita acusadora, mas também reveladora de uma figura e do ambiente que a envolve, além de mostrar bem até ao que as pessoas estão dispostas a acreditar. Nenhum conto de fadas dura para sempre na realidade, e a história de Lance Armstrong está a sentir agora os efeitos que causou ao desporto e às pessoas por tantos anos de doping no ciclismo, que não cabem todos em duas horas. Mas o filme é já uma grande e credível amostra de um acontecimento e de uma farsa que, sem dúvida, continuará a marcar a atualidade.

8/10


In http://www.espalhafactos.com/2013/11/15/a-mentira-de-armstrong-a-queda-de-uma-grande-ilusao/
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